Um Juiz, um Réu e um Advogado: a Salvação contínua e progressiva

A Salvação de Deus é o tema principal que ocupa tanto o Antigo quanto o Novo Testamento. Sem a salvação tanto Deus quanto o homem têm os seus objetivos frustrados. Deus quer a sua criatura principal, o homem, como o centro de Sua criação para exercer o seu domínio através da Sua expressão para que toda a Terra conheça a Deus. Ele é chamado pelo apóstolo por Paulo de Deus nosso Salvador (1 Tm 1 :1).

A Salvação, ao contrário do que alguns possam entender, não se trata de Deus levar o homem para um lugar agradável onde nunca mais vai trabalhar, sentir calor, passar fome, etc. e passar o dia inteiro de “papo pro ar” em contemplação. Não, a Salvação descrita nas Escrituras visa restaurar algo que foi perdido – o homem -, danificado, com a finalidade de colocá-lo na posição originalmente perfeita e completa.

A Bíblia termina mostrando essa salvação completa do homem. O resultado dessa salvação é, por um lado, o Criador sentado no Seu trono - numa atitude de conclusão, de satisfação -, e o homem, de cujos olhos não jorram mais lágrimas de dor nem de pranto ou qualquer sofrimento, livre da morte, sem necessidade de clamor, plenamente satisfeito, cheio e feliz, mas ainda trabalhando e servindo ao seu Deus (Ap 21 :5,4 ;22 :3). Poderíamos resumir todo o Universo vindouro como sendo uma esfera de satisfação plena, onde veremos Deus contente, reinante e um homem satisfeito e feliz O servindo.

Esta salvação tem início hoje e termina quando todas as coisas forem concluídas. De nossa parte, como seres mortais, temos a oportunidade de participação nessa salvação, limitada ao tempo da nossa existência. Enquanto estamos a caminho de ver consumada esta salvação nos é dada a chance de cooperarmos com ela, e isto até o dia em que seremos chamados a prestar contas do nosso trabalho, daquilo que realizarmos da parte que nos cabe no serviço desta incumbência dada pelo Criador.

Desta Salvação completa, integral, portanto, participam tanto Deus como o homem, cada um fazendo a sua parte. Esta não é uma obra massificada, não é um produto, digamos, industrializado, uma fabricação em série, mas uma obra artesanal, onde participa Criador e criatura, dando cada um o melhor de si mesmo para a conclusão final da obra. A beleza desta obra é o fato de que nela se pode ver o labor mais perfeito do Criador assim como a dedicação incondicional da criatura. O que há de melhor do Criador foi empregado nela, o que há de mais valioso da criatura tem que ser entregue a esta obra. Somente assim, Criador e criatura terão, no final, a plenitude da satisfação do trabalho.

Na Bíblia há uma palavra para definir e resumir a obra do Criador na Sua participação na Salvação, esta palavra é JUSTIÇA. Para iniciar e concluir a Salvação há a necessidade de Justiça. O resultado do trabalho de Deus na Sua salvação tem que está apoiado e carimbado com um selo: Justiça. Isso porque, Deus é justo em todos os seus aspectos e atributos. Portanto, nada do que ele faz no início, durante e na conclusão desta Salvação deixa de levar este selo, tudo é justo e plenamente justificado.

No início do Seu trabalho de salvação, o homem era só pecado. Deus na Sua Santidade e pureza, não podia sequer olhar para o homem. A podridão dos pecados do homem impedia que o Deus Santo o olhasse. Por isso, para iniciar esta salvação, tal problema necessitava de uma solução radical e completa, e Deus o fez. A atitude de Deus em mandar o Seu único Filho à Cruz demonstra que Deus levava a sério demais esta Salvação. Só o Filho de Deus, na sua mais inocente e imaculada natureza, poderia servir de base e selo para dar início ao processo da salvação completa do homem.

Jesus foi a peça chave que satisfez à condição caída do homem, entendendo-o em toda a sua mórbida condição. Ao mesmo tempo, Jesus como homem satisfez a Deus em toda sua exigência legal. Alguém teria que pagar o preço da imundícia do pecado. Alguém justo e limpo teria que não fazer questão de sujar a sua honra e se vestir da lama podre do pecado e assim ser desprezado pelo homem e pelo próprio Deus para, deste modo, servir de ato de Justiça dando o pontapé inicial da salvação de Deus. Jesus fez esta parte.

Jesus! Nenhum dos lados pode reclamar nada dele, nem Deus, nem o homem. Pelo lado de Deus, em Jesus Ele tem suas justas exigências cumpridas. Pelo lado do homem, este também encontrou Nele, o homem que faltava no meio da humanidade. Jesus foi a pessoa capaz de pagar o preço exigido pela queda do homem. A Sua condição imaculada, sem pecado, o qualificou a representar-nos diante dos céus na mesma condição de Deus. Quando se apresentou a Deus após Sua ressurreição, Ele elevou o status do Homem e o pôs no mesmo status de Deus. Ele apresentou-se ao Pai como um representante da raça humana, porém perfeito, justo, santo, igual a Deus. Por meio Dele, o homem foi elevado, exaltado a uma condição de poder “negociar” com Deus uma salvação em “pé de igualdade”. Após a crucificação, a justiça de Cristo era inquestionável, ou seja, nenhum pecado nosso poderia ser levado mais a julgamentos, a questionamentos. O que ele fez foi radical, absoluto, sem probabilidade de desfazimento.


E quanto às nossas faltas depois de aceitarmos esta salvação?

A salvação que Deus proporciona ao homem é contínua, ou seja, não pára quando ele é alcançado por Deus, mas o acompanha por toda sua vida, até quando é levado ao Pai e recebe o prêmio, a coroa da justiça. Durante o processo contínuo desta salvação, muitas vezes ainda se observam atos de injustiças naqueles que estão sendo salvos. O que dizer disso? Dizemos que Jesus foi o início e ainda continua sendo o meio pelo qual se pode “negociar” a salvação com Deus. Sabemos pela experiência que é perfeitamente possível que alguém que entrou no processo desta salvação, venha a falhar. Ele foi chamado e escolhido por Deus para participar desta salvação, teve seus pecados perdoados e até demonstrou fidelidade no início, mas no meio do processo falhou. Quando já se recebeu esta salvação, as lutas se intensificam mais do que antes. Os aspectos grosseiros, exteriores, os pecados visíveis já foram vencidos, mas agora começam as lutas interiores. O inimigo já conhece muito as nossas táticas humanas, assim como os nossos pontos fracos. Dessa forma, é possível que algumas vezes falhemos de novo. Isso faz com que nos sintamos débeis e com a sensação de que todo o trabalho realizado por Deus, a nosso favor, está perdido. Talvez até alguém pense que Deus se enganou com respeito a sua pessoa. Pensa: “deveria ser outro e não eu, pois não sou digno”. Talvez até queira desistir da salvação. Nessas horas, mais uma vez, a Justiça de Deus é requerida. Quem conhece do que estamos falando pode se lembrar que muitas vezes tentamos ser justos por nós mesmos no meio deste processo e nos arrependemos de algumas falhas e pecados e prometemos a Deus que nunca mais iríamos falhar, etc. mas, depois..... falhamos de novo.

Onde está o problema?

O problema é o seguinte: da mesma forma como não conseguimos dar o pontapé inicial da salvação, tampouco vamos conseguir fazer nada agora quando já estamos no meio do processo. Tudo isso ocorre porque Deus não muda, Ele é o mesmo Deus justo e Santo do início e que não pode ver, nem muito menos tocar a asquerosa natureza do pecado. Você e eu precisamos de Justiça para que continuemos caminhando dentro deste processo de salvação, mas o fato é que não temos em nós mesmos a justiça exigida por Deus. Porém observe: Cristo não só é a Justiça inicial, mas Ele permanece diuturnamente intercedendo por nós diante de Deus. E mais: Ele continua sendo a nossa Justiça para cumprir a justa exigência do Pai. Quando nos arrependemos dos nossos pecados e injustiças e deixamos de lado as nossas tentativas de autocorreção, quando deixamos o orgulho de tentar ser fiéis por nós mesmos e nos voltamos para Ele, então continuamos a “negociar” com Deus no mesmo pé de igualdade do princípio. Nada mudou! Cristo continua sendo a nossa Justiça.

Precisamos saber três coisas básicas: 1) a natureza caída do pecado está permanente em nós da mesma forma, mesmo depois de aceitarmos a salvação de Deus. A natureza do pecado está em nosso ser, mesmo depois de crermos Nele. 2) o Deus Santo e Justo também continua fazendo as Suas exigências para nós. Ele não abre de mão da Santidade e da Justiça. 3) O Justo, a nossa justiça, Jesus, também continua ativo bem no meio do processo, sendo a nossa “carta na manga”, para regatearmos a nossa parte no “negócio” com Aquele com quem estamos lidando. Portanto, continua existindo um réu, um juiz e um advogado. Deus, o juiz, faz a sua parte, exige Justiça. O advogado, Cristo, faz também a Sua parte: Ele mesmo é a nossa justiça, o nosso trunfo neste maravilhoso e complicado processo da salvação.

E quanto a nós, qual a nossa participação na obra da salvação de Deus?

O apóstolo Pedro conhecia mais que qualquer outro esses aspectos da necessidade da justiça de Deus no processo da salvação. Ele caiu mais de uma vez, ele chegou ao fundo do poço quando negou o seu Senhor diante dos homens (Mt). Ele também caiu quando voltou à velha profissão e influenciou os irmãos a voltarem com ele para a pescaria (Mt). Ele ainda cometeu deslizes, como o de praticar política e até hipocrisia, sendo então repreendido severamente por pelo apóstolo Paulo (Gl). Ele sabia o que era ser fraco, o que era prometer muitas vezes ser o fiel, ser o único a dizer “mesmo que todos te abandonem eu jamais te deixarei” (Mt), e no fim fracassar. Por isso mesmo, Pedro é a pessoa com quem mais nos identificamos neste processo de salvação. Parece que ele aprendeu para nos ensinar exatamente o que devemos fazer para ser fiéis até o final.

Em 1Pedro, desde o versículo 1, ele descreve o processo da salvação de maneira concisa e forte. Ele diz que fomos “alcançados pela justiça de nosso Deus e Salvador Jesus Cristo”. Ele prossegue dizendo que essa justiça nos leva a graça e a paz, as quais crescem a medida que conhecemos a Deus, o Pai, a origem, e a Jesus Cristo, com seu Senhorio sobre nossas vidas. Esse conhecimento nos leva à vida - uma sensação interior de Deus em nós - e à piedade - a expressão da nova natureza recebida de Deus e manifestada através de nós para ser vista pelos homens.

Segundo descreve o apóstolo Pedro, ao participarmos desta vida e piedade vamos nos apoderando das promessas de Deus para nós. Isto nos anima, encoraja e habilita-nos a participar cada dia mais da natureza divina. Este participar nos ajuda a livrar-nos das corrupções deste mundo. Ao chegarmos nesse ponto parece que alcançamos o clímax da questão da vida cristã, entretanto, o velho Pedro, que conhecia bem o entusiasmo daqueles que seguem ao Senhor por um tempo e depois o deixam, solenemente nos mostra qual a nossa necessidade: Reunir toda a nossa diligência. Este é o segredo dado por Pedro para descrever o nosso êxito no processo da salvação. Nesta salvação, Deus entra exigindo a Sua infinita justiça, Cristo entra com Sua gloriosa e vitoriosa morte na cruz, e nós devemos entrar com toda a nossa diligência.

Deus → Exige justiça

Cristo → Oferece a Sua morte vitoriosa

Homem → Toda diligência


Por que voltamos a cair e nos desanimamos muitas vezes?

A razão para o insucesso de tantos na vida cristã, de tanto descontentamento, de tantos “desviados”, é que não entendemos claramente o cerne dos problemas envolvidos no processo da salvação contínua de Deus. Muitas vezes queremos entrar em território que não nos pertence. Quando pecamos, pensamos que o nosso remorso, as nossas lamúrias e as promessas de “nunca mais eu faço isso ou aquilo” ajuda em alguma coisa no processo da salvação. O nosso orgulho, na maioria das vezes, impede que digamos a Deus que não temos jeito, somos um caso perdido e a única coisa que pode nos manter neste processo é a Sua infinita Justiça. O que pode nos manter fiéis é unicamente o fato de Cristo ter morrido por nós e de estar intercedendo por nós dia e noite nos céus. Apenas isto é que nos habilita a continuar a luta.

Que fazermos agora?

Uma vez que conhecemos esta tão grande salvação (1Pe), que devemos fazer? Devemos deixar as lamúrias e as decepções com nossas próprias pessoas, e ao invés de estar lamentando e dizendo que não temos mais jeito, arregaçar as mangas, tomar o arado e buscar o conhecimento de Deus através da Palavra usando toda nossa diligência.

Creio que o único caminho para prosseguirmos na salvação é usar toda a nossa diligência, esse é o preço que devemos pagar para conhecer a Deus mediante a Sua Palavra. Neste conhecimento Deus revelará o que deseja de nós, o que deseja que façamos na Sua obra, e mediante este conhecimento prosseguimos conhecendo o Seu coração. Seguindo o que Ele passo a passo nos ensina e usando toda diligência até o final, seremos salvos por completo, não apenas nosso espírito que já foi selado quando cremos, mas todo o nosso ser: espírito, alma e nosso corpo (1Ts).

Djalma Marques

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