QUE FAREMOS?

Abaixo, uns trechos interessantes do livro "Rescondierando o Odre", de Frank Viola, publicado em Português pela editora Restauração de Curitiba/PR.
O irmão Frank possui um ministério voltado para a vida orgânica da igreja, praticada nas casas, fora do sistema eclesiástico e com simplicidade (www.tpmin.org):


É um perigo bem comum no andar cristão o hábito de equiparar um entendimento mental da verdade com sua realização prática na vida diária. Se você serviu ao Senhor durante algum tempo, sem dúvida alguma conhece o sutil perigo de deixar que uma verdade permaneça estéril em seu intelecto, entendida mentalmente mas não aplicada espiritualmente. Nosso problema é que somos bem rápidos em perceber coisas em nossa mente, enquanto nossa experiência fica defasada muito atrás. A este respeito, Russell Lipton escreve o seguinte:

Devemos nos guardar quanto a isso (que é válido mesmo entre os leitores que concordam com isso). Não basta dar um mero consentimento mental no que toca à igreja, considerando isso apenas como uma ‘questão’. Vivemos numa época de questões. Paulo se referiu aos seguidores de questões como aqueles que têm comichão de ouvir. E não os tratou com suavidade. Esta igreja, esta Noiva pela qual o Ungido —enquanto noivo celestial— levou a cruz, não é uma mera ‘questão’. Ao redor de sua consumação giram assuntos de vida, de morte, de galardão, de vergonha, de céu, de inferno ( Does the Church Matter? — Importa a igreja?).

Certamente, ter uma correta percepção das coisas divinas não garante que as tenhamos nas mãos. Tendo em perspectiva este pensamento, mudemos nosso enfoque à desafiante areia da aplicação e implementação práticas das mesmas. Depois dessa avaliação sobre o entendimento bíblico da igreja, não seria menos trágico impedir resplandecer a nova luz que descobrimos. Portanto, vou formular uma concisa questão: Que faremos? Nas páginas anteriores analisamos extensamente a necessidade de uma renovação radical na igreja. Mas a questão que temos diante de nós agora tem que ver com os meios bíblicos de renovação. Ao enfocar este problema, alguns advogam a idéia de renovar a igreja institucional de dentro para fora. Mas aqueles que tentam reorganizar de forma completa a igreja estabelecida, encontram séria resistência, frustração e até mesmo perseguição.

Para ser inteiramente sincero, a não ser que se desmantele o sistema clerical e sectário extrabíblico numa igreja em particular, todos os esforços que se façam para atingir o supremo desejo de Deus serão energicamente desafiados. Quem tentar efetuar uma renovação bíblica numa típica igreja institucional, comumente encontrará os seguintes resultados desalentadores: o pastor se sente ameaçado; os congregantes resistem a interrupção do statu quo ; a junta diretiva é tomada pelo pânico temendo uma divisão; e o povo interpreta erroneamente o que ocorre. Antes de analisar a resposta do Senhor ao problema da igreja contemporânea, olhemos rapidamente alguns movimentos modernos que tentaram renová-la.

Como adotar a atitude correta O que disse até aqui, não tem por objetivo julgar a ninguém no amado povo de Deus. Pelo contrário, pretende marcar um contraste entre as estruturas que Deus sancionou em sua Palavra e as que não sancionou. É um fato que Deus usou e está usando a igreja institucional. Devido a sua misericórdia, o Senhor fará sua obra por meio de qualquer estrutura, enquanto puder achar corações que lhe sejam verdadeiramente receptivos. Portanto, não cabe dúvida de que Deus está usando as igrejas em células, as megaigrejas e as da terceira-onda-de-restauração por igual —ainda mais do que algumas das chamadas ‘igrejas caseiras’ que se isolaram e se tornaram exclusivas.

Mas este não é o tema que temos em mão. O Senhor nos cobra responsabilidade por seguir sua Palavra até onde a ouvimos. Comparar-nos com outros é um fundamento pantanoso para tentar sua aprovação (2 Coríntios 10:12). Por isso, tudo o que seja menos do que aquilo que Deus revelou na Bíblia no que diz respeito à prática eclesial, não atingirá seu pleno propósito para seu povo. Não digo isto com ânimo de criticar, mas judiciosamente.

As palavras de T. Austin-Sparks captam o tom de meu espírito:

Enquanto seitas e denominações, missões e instituições constituírem um desvio no modo de fazer e propósito originais do Espírito Santo, indubitavelmente Deus abençoará e usará as mesmas de uma forma muito real e realizará soberanamente uma grande obra por meio de homens e mulheres fiéis. Damos graças a Deus por agir assim, e pedimos que todos os meios possíveis de serem usados possam ter sobre si a Sua bênção. Não digo isso imbuído de algum espírito de condescendência ou de superioridade. Deus me livre! Toda reserva se deve tão somente ao fato de que cremos que houve muita dilação, limitação e debilidade, devido ao desvio da primeira e plena posição dos primeiros anos da vida da igreja, e a um ônus espiritual a ser pago para seu retorno. Não podemos aceitar a presente ‘desordem’ como tudo aquilo que o Senhor teria ou poderia ter (Explicação da natureza e história de ‘This Ministry’ [Este ministério], feita por T. Austin-Sparks.)

O SINTOMA MASCARADO COMO CAUSA

Para que ocorra uma genuína renovação da igreja, devemos distinguir entre o sintoma e a raiz do problema. Neste sentido Elton Trueblood disse corretamente que "o problema básico (da igreja institucional) é que a cura proposta tem uma similitude muito conspícua com a doença" ( The Company of the Committed (A companhia dos comprometidos). As conferências para um clero ‘queimado’ pelo esgotamento, as reuniões de unidade interdenominacional, os grupos de apoio para pastores que sofrem ‘mordidas de ovelhas’, e os ateliês que apresentam as últimas estratégias de crescimento eclesial, são exemplos vívidos da penetrante observação de Trueblood. Todas estas supostas ‘curas’ apenas consentem o sistema, que é o responsável pelos males da igreja. As mesmas simplesmente tratam os sintomas, enquanto ignoram o verdadeiro culpado, e portanto, o mesmo drama prossegue sendo representado em diferentes palcos. É o sistema clerical/sectário que inibe o redescobrimento da comunidade que vive em contato direto uns com outros, que suplanta a liderança funcional (como Cabeça) do Ungido e sufoca o pleno ministério de todos os crentes. Deste modo, todas as tentativas de renovação serão míopes, até que a estrutura clerical e o sistema denominacional sejam desmantelados pela assembléia local. Na melhor das hipóteses, tais tentativas trarão apenas mudanças limitadas. E no pior caso, as mesmas atrairão uma franca hostilidade.

Para dizê-lo lisa e claramente, tentar conseguir um verdadeiro restabelecimento do testemunho pleno de Jesus a partir do interior de uma igreja institucional é normalmente uma tarefa inútil. Uma tentativa tal pode ser assemelhada a desmantelar uma torre desde o solo. Se os que estão desmontando a torre começam a expor a estrutura, a torre virá abaixo sobre eles. A única maneira de desmantelar uma torre é proceder de cima para baixo. E isto requer que o processo de desmantelamento comece desde o topo. Do mesmo modo , as assembléias locais nunca atingirão o propósito de Deus se não abandonarem a estrutura clerical/denominacional. Os movimentos de renovação que meramente transplantam princípios bíblicos em terra institucional, nunca chegarão a ser bem sucedidos em realizar o pleno propósito de Deus. Vejamos como Arthur Wallis expressa isto:

Uma igreja não estará plenamente renovada se deixar intactas suas estruturas. Ter dentro de uma igreja tradicional um grupo avivado, composto por crentes que receberam o Espírito Santo e estão começando a mover-se nos dons espirituais; introduzir um espírito mais livre e vivo na adoração, com cânticos de renovação; permitir bater palmas, levantar as mãos e até dançar; dividir a reunião no meio da semana em grupos nos lares com o propósito de discipular; substituir o ‘liderança de um homem’ com uma equipe de anciões —todas estas medidas, por melhores que sejam, apenas provarão que na realidade não passam de uma operação de remendo. Indubitavelmente, haverá indivíduos abençoados. Haverá um avivamiento inicial da igreja. Mas se tudo termina ali, os resultados a longo prazo serão prejudicados. Haverá uma surda luta permanente entre as novas medidas e as velhas estruturas, e você pode estar seguro de que ao longo prazo as velhas estruturas vencerão... o novo remendo

nunca chegará a combinar com o velho vestido. Sempre luzirá incongruente ( The Radical Christian [O cristão radical]).

Em suma, a igreja não será renovada nunca até que reconheça que a estrutura dentro da qual opera é inadequada e contraproducente. Apesar da boa intenção das pessoas que a integram, o próprio desenho interior da igreja institucional determina nossa derrota. Portanto, uma verdadeira renovação deve ser radical (isto é, deve ir até a raiz). Restabelecer o testemunho do Senhor requer que eliminemos todos nossos remendos e ‘curas’ eclesiásticas.

Apelo para abandonar o cristianismo dominado pelo clero Nesse aspecto, damos graças a Deus pelos milhares de cristãos que deixaram sua profissão clerical, largaram sua posição hierárquica de muita autoridade e abandonaram sua seita para vir a ser simples irmãos na casa do Senhor. É entre os tais que o Senhor achou uma base livre, sem estorvos, para seu próprio edifício. Como era de se esperar, os que deixaram seu posto clerical assalariado, pagaram um tremendo preço. Tal consideração toca uma sensível corda no coração do típico profissional religioso pago. Por esta razão, muitos deles terão de resistir semelhante noção e reagir de uma maneira semelhante à dos escultores de Éfeso, que resistiram a mensagem de Paulo porque "punha em perigo seu negócio" (Atos 19:24-27). Portanto, a menos que os crentes que tenham posições clericais estejam dispostos a examinar sinceramente e obedecer o ensino neotestamentária concernente a este tema, qualquer análise do assunto continuará sendo para eles um tema que pode facilmente evaporar-se.

É muito importante sublinhar aqui que os líderes eclesiásticos não precisam necessariamente ser déspotas para por obstáculos no ministério mútuo dos crentes. Sem dúvida alguma, aqueles que constituem o clero são tipicamente cristãos bem intencionados e talentosos, que crêem sinceramente que Deus os tem "chamado" à sua profissão. Alguns são ditadores benévolos altamente estilizados e muito regulamentados. Outros são tiranos espirituais que andam procurando em forma maquiavélica de atingir poder, que aprisionam e congelam a vida de suas assembléias. A questão é que na realidade o clero não precisa usar formas malignas de pedagogia nem de autoridade para prejudicar a vida corporativa. A mera presença do modelo hierárquico de liderança de ‘um acima e outro abaixo’ por si só suprime o ministério mútuo, não importa quão pouco autoritário seja o temperamento do clérigo. A mera presença do clero tem o efeito amortecedor de condicionar a congregação a ser um conjunto de membros passivos e perpetuamente dependentes de sua liderança. Christian Smith expressa isto com uma interessante lucidez:

O problema é que, independente do que nossas teologias dizem a respeito do propósito do clero, o efeito real que exerce a profissão clerical é baldar o Corpo do Ungido. Isto ocorre não porque o clero tenha a intenção de fazê-lo (normalmente eles objetivam o contrário), mas porque a natureza objetiva desta profissão inevitavelmente converte o leigo em recipiente passivo. A função do clero é essencialmente a centralização e profissionalização dos dons de todo o Corpo numa pessoa. Desta maneira o clero representa a capitulação do cristianismo a tendência da sociedade moderna para a especialização; os clérigos são especialistas espirituais, especialistas eclesiais. Todos os demais na igreja são meramente crentes ‘comuns e correntes’ que têm trabalhos ‘seculares’ em que se especializam em atividades ‘não espirituais’, como indústria, ensino ou comércio. De maneira que, na realidade, aquilo que deveria ser efetuado por todos os membros da igreja juntos e de uma maneira comum, descentralizada, não profissional, realiza-o um profissional único, de tempo integral —o Pastor. Sendo assim, o pastor é pago para ser o especialista da administração e operações eclesiais, diante disso é totalmente lógico e natural que o leigo comece a assumir (isto é, assuma) um papel passivo na igreja. Em vez de contribuir com sua parte para edificar a igreja, vão à igreja como recipientes passivos para ser edificados. Em vez de empregar ativamente o tempo e suas energias exercendo seus dons para bem do Corpo, sentam-se e deixam que o pastor dirija a função ( "Church Without Clergy" [Igreja sem clero] , Voices in the Wilderness, Nov/Dic ’88).

Muito provavelmente o crente típico não percebe que esta noção de liderança foi plasmada por séculos de história eclesiástica e burocrática (equivalente a cerca de 1700 anos!). O conceito de clero se acha tão introduzido no pensamento da maior parte dos cristãos modernos, que qualquer tentativa de desviar-se do mesmo encontrará uma feroz oposição. Por esta razão, a maioria dos crentes modernos resiste à idéia de desmantelar o clero, justamente tanto como os membros do próprio clero. As palavras de Jeremias têm aqui uma aplicação pertinente: "...os profetas profetizaram mentiras, e os sacerdotes dirigiam pelas suas próprias mãos; e meu povo assim quis " (Jeremias 5:31).

Por conseguinte, tanto o ‘clero’ como o ‘leigo’ são igualmente responsáveis pelas doenças da igreja de nossos dias.

Não menosprezar as coisas pequenas

Recorde-se que na história da escravidão de Israel, Deus chama seu povo para sair da Babilônia e retornar a Jerusalém para reedificar a casa do Senhor sobre seus alicerces originais. Note-se que apesar de Israel ainda estar cativo em terra estranha, o povo se congregava para adorar a Deus nas variadas sinagogas espalhadas pelo império.

No entanto, o supremo apelo de Deus a Israel foi que deixasse os cômodos lares que tinha edificado na Babilonia e regressasse a Jerusalém para reedificar o verdadeiro templo do Senhor. Desafortunadamente, apenas uns poucos israelitas se dispuseram a pagar o preço de deixar os convenientes estilos de adoração aos quais se tinham acostumado. Em conseqüência, apenas um pequeno remanescente voltou à terra de Israel (Esdras 9:7, 8; Ageu 1:14).

Não é difícil ver que o apelo de Deus a Israel para que voltasse à terra e reedificasse Sua casa, prefigura o presente clamor do Espírito Santo a sua igreja no dia de hoje. Portanto, o ônus do profeta Ageu tem um tremendo significado para nós neste momento. Leiamos suas palavras:

Acham que devem habitar vossas casas decoradas enquanto esta casa está deserta? Pois assim disse Jeová dos exércitos: Meditai bem sobre vossos caminhos. Semeais muito, e recolheis pouco; comeis, e não vos saciais; bebeis, e não ficais satisfeitos; vestis-vos, e não vos aqueceis; e o que trabalha por salário, recebe seu salário em saco rompido. Assim disse Jeová dos exércitos: Meditai sobre vossos caminhos. Subi ao monte, trazei madeira, reedificai a casa; e porei nela minha vontade, e serei glorificado, disse Jeová. (Ageu 1:4-8)

Diante do fato de que apenas um pequeno e aparentemente insignificante remanescente voltou a Jerusalém para consertar os muros da cidade e para reedificar a casa de Deus, o profeta Zacarias pronunciou esta desafiante frase: "...os que menosprezaram o dia da pequenez... " E por que ? Porque apesar da aparente pequenez do esforço,

Deus estava nele! Apesar do fato de que a maior parte de Israel considerar ‘como nada’ o templo reconstruído, em comparação com o destacado esplendor do templo anterior (Egeu 2:3), Deus estava nele! Apesar do fato de que os anciãos de Israel choraram de desespero quando viram o pequeno remanescente lançar alicerces nada impressionantes, Deus estava nele (Esdras 3:12)!

Desde o exército dos 300 de Gideão até os 7.000 de Elias em Israel, "cujas joelhos não se dobraram ante Baal" —desde os sacerdotes levíticos, que entraram primeiramente na terra prometida, até os recônditos Simeões e Anas dos dias de nosso Senhor, que "esperavam a consolação de Israel", a mais preciosa obra de Deus foi realizada através dos pequenos, dos débeis e dos desapercebidos (1 Coríntios 1:26-29; 1 Reis 19:11-13).

Aos olhos do mundo o grau de sucesso sempre está vinculado a pontos de vista naturais, tais como números, extensão, tamanho, peso e coisas semelhantes. E as maiores obras de Deus são tidas como pequenas aos olhos do homem. Nesse aspecto George Moreshead pergunta com perspicácia:

Há nestes dias uma corrente que flui profunda e reconditamente entre os membros do Corpo, um povo espalhado, que está sendo introduzido nas profundidades da revelação e da experiência do Ungido, nas mais extremas disposições dos tratos do Espírito Santo, que está sendo esvaziado, crucificado... um grupo pioneiro que o Senhor precisará para abrir caminho para que o remanescente do Corpo prossiga em frente —seriam estes alguns dos ‘obreiros da décima primeira hora’ os que agora estão em Seu processo de produção? (Trecho de uma carta pessoal ao autor).

Neste mesmo sentido T. Austin-Sparks escreve:

O que hoje se chama ‘Cristianismo’ —e o que veio a chamar-se ‘igreja’— é um amontoado de tradições, é uma instituição e um sistema absolutamente assentado, arraigado e estabelecido como o judaísmo sempre foi, e será bem difícil mudá-lo fundamentalmente, como foi e é o caso do judaísmo. Podem-se fazer ajustes superficiais —e tais ajustes estão sendo feitos— mas a mudança necessária para resolver é realmente o grande problema, implica num considerável preço. Pode muito bem ser, como foi nos dias do Senhor, que não se dê a luz essencial a muitos, porque Deus sabe que eles não pagariam nunca o preço. Pode ser tão somente um ‘remanescente’ —como na antigüidade— aqueles que responderão ao chamado de Deus, porque eles terão de satisfazer as demandas de todos os custos. (Citado de um manuscrito inédito escrito por George Moreshead).

Então, que fique bem claro que o apelo de Deus para restabelecer a essência da vida eclesial neotestamentária é um apelo que poderá ser atendido apenas por aqueles que iniciaram um fundamento inteiramente novo, aparte dos sistemas e dos costumes religiosos que os homens decaídos construíram. E esse fundamento é o Ungido. Mas isto não responde nossa questão inicial de que faremos . Apenas remove o cipoal para que possamos ver mais claramente a perspectiva do propósito de Deus. Enquanto as Escrituras não nos oferece nenhum passo, já preparado, para a edificação da igreja neotestamentária, eu creio que há vários princípios gerais essenciais para qualquer obra espiritual que procurre restabelecer o mais pleno propósito de Deus para seu Corpo. Estes são:

(...)

Para aclarar ainda mais este conceito, alguém em alguma parte disse que o paradigma bíblico representa "a recuperação para Deus das costumes correntes e a ‘dessacralização’ das coisas feitas sagradas (por mãos humanas)". Mas, devido ao paradigma tradicional estar entrincheirado na mente de tantos cristãos, a mera noção de "sair fora das linhas" deste modelo e construir uma nova matriz por meio da qual repensar a igreja, pode ser muito aterrorizador. O desafortunado resultado disto é que aqueles que não tiverem uma mudança de paradigma no que toca à igreja, ignorarão ou impugnarão as igrejas que deixem de encaixar-se no paradigma tradicional, ainda que o mesmo esteja em desacordo com o Novo Testamento.

Aos olhos daqueles que vêem o mundo através de lentes institucionais, a não ser que uma igreja se reúna no lugar ‘correto’ (um edifício), tenha a liderança ‘apropriada’ (um pastor ou sacerdote ordenados) e leve o nome ‘correto’ (um nome que indique uma ‘cobertura’), não se a reconhece como uma igreja autêntica. Pelo contrário, é taxada com termos como "para-igreja", os quais sugerem sutilmente que a mesma é algo inferior a uma autêntica igreja. De maneira que, na mente daqueles que ainda não se enfastiaram de correr no tráfego do "igrejismo" institucional, dirigido por programas, aquilo que é anormal, considera-se normal, enquanto o que é normal, considera-se como anormal. Este é o infeliz resultado de não fundamentar nossa fé e nossa prática na Palavra de Deus. Ao expressar este mesmo conceito, Jon Zens mostra uma riqueza de discernimento ao dizer:

Parece que normatizamos aquilo que não tem sanção Escritural (ênfase no ministério de um só homem), e omitimos aquilo que é amplamente apoiado pela Bíblia (ênfase no mútuo ministério)... exaltamos aquilo para o qual não há evidência, e descuidamos daquilo para o qual há abundante evidência ( Building Up the Body: One Man or One Another? [Edificando o Corpo: Ministério de um homem ou ministério mútuo?], Searching Together , Vol. 10:2).

Do mesmo modo, Alexander Are lamenta o dilema da igreja contemporânea dizendo:

Tertuliano achou necessário dizer: ‘Costume sem verdade é erro envelhecido.’ Há pouco em nosso ordem e prática eclesial que tenha sanção bíblica. No entanto, devido ao fato desses costumes serem antigos, são aceitos sem objeção como parte essencial da ordem divina ( New Testament Order for Church and Missionary [Ordem neotestamentária para a igreja e os missionários]).

Devido ao fato de muitos cristãos modernos professarem uma impensada adesão a tradições humanamente inventadas e a paradigmas estritamente guardados, relativos à estrutura eclesial, com freqüência toda nova ou arejante maneira de ‘fazer’ igreja é vista com suspeita irrazoável, ainda que a mesma tenha bem mais apoio bíblico do que o malfadado modelo tradicional.

Em suma, nada que não seja uma mudança de paradigma no que toca à igreja, junto com a claridade da luz reconfortante procedente do Espírito Santo, poderá engendrar uma verdadeira renovação no corpo do Ungido. Os ajustes feitos ao velho odre, não importa quão revolucionários ou radicais sejam, irão apenas até aí: serão apenas ajustes. A única forma de renovar a igreja institucional é desmantelá-la por completo e edificar algo muito diferente e muito melhor. Dito de outra maneira, o que a igreja precisa não é tanto de uma renovação, mas de uma substituição .

O desgastado e envelhecido odre da prática eclesial e a andrajosa vestimenta das formas eclesiais precisam ser mudados, não só modificados, por um odre novo e um vestido novo (Lucas 5:36-38). Portanto, precisamos de uma mudança de paradigma (no plano natural), bem como de uma nova revelação do Ungido e de seu Corpo (no plano espiritual).

Que o Senhor nos livre de querer impor descuidadamente nosso próprio modelo de organização eclesiástica no lugar do modelo dos autores neotestamentários, e que possamos ter a coragem de descartar toda nossa bagagem institucional (ou ao menos, de abrir nossas bolsas e vistoriar nossas malas), para que possamos aprender a ler a Palavra com olhos renovados e bem abertos.

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