O SERVIÇO NA LÓGICA X O SERVIÇO NO AMOR

Lendo o Evangelho de João no capítulo 20 encontramos uma mulher que abandona seu leito de “manhã, sendo ainda escuro” para buscar o seu Senhor que havia sido crucificado recentemente (vs 1). O texto não nos diz se essa é a primeira vez que ela foi ao túmulo ou qual o motivo que a levou a fazer isto, mas é possível inferir que a força que moveu aquele coração não foi a lógica. Pela lógica, seu senhor, estava morto e no terceiro dia de seu sepultamento seu corpo já deveria estar, até mesmo, cheirando mal. Portanto, descartamos a lógica humana para aquela atitude, e temos que crer que algo mais forte impelia àquela mulher. Quando ela chega ao sepulcro e não encontra seu senhor ela, imediatamente, corre para avisar aos discípulos. João e Pedro, se apressaram para ver o ocorrido e, ao chegarem ao túmulo, constatam o fato, e creram, pois até aquele momento ainda não haviam entendido as Escrituras no tocante a ressurreição( vs 9). Em seguida, diz que eles voltaram para casa (vs10). O mesmo versículo na Antiga Versão RV de 1569 em espanhol nos parece mais fiel ao original. Ali se diz: “Y volvieron los discípulos a los suyos”. Em outras palavras: os discípulos voltaram para suas próprias coisas. Parece que naquele momento, eles tinham uma preocupação maior, e isso é verdade. Entretanto, o que fazia a mulher? No versículo 11 diz: Porém, Maria, permanecia junto à entrada do túmulo, chorando (vs 11)!

Situações adversas expõem o que está em nosso coração. Aquela situação expôs o que estava no coração da mulher e isto a levou a uma única atitude: chorar! Enquanto os discípulos abandonaram o túmulo, a mulher permaneceu ali chorando. Ninguém chora racionalmente. O choro é o sentimento mais íntimo que não conseguiu ser contido e, por isso, transbordou em forma de lágrimas. Não se chora lógica, se chora sentimentos. Esta mulher estava tão cheia de amor, de apreço, de agradecimento, de ternura pelo seu senhor e, ao mesmo tempo, de dor pela sua ausência, que quando viu que o seu senhor não estava mais ali, chorou.

Os que voltaram para “los suyos” perderam uma grande oportunidade de ver algo excepcional. O senhor poderia ter aparecido aos líderes, Pedro, o ousado, e João, o amado. Mas, como já dissemos, eles pareciam estar preocupados com outras coisas, às quais veremos mais adiante. Popularmente se diz que as mulheres são mais propensas a sentimentos, enquanto os homens são mais práticos. A atitude que se segue mostra que a mulher não só tinha um sentimento, digamos, teórico, mas ela estava disposta à prática, a qualquer coisa para ter, pelo menos, o corpo do seu senhor com ela. Quando o Senhor se pôs ao seu lado, ela supondo que era a pessoa que cuidava do cemitério, o jardineiro, lhe disse: se tu o tiraste, dize-me onde o puseste, e eu o levarei. Mais uma vez isso foge à lógica. Como aquela mulher poderia levar um corpo para cidade? O amor não tem mesmo lógica. O amor primeiramente sente, depois age, e isso é tudo.

Não sabemos exatamente porque a mulher não O reconheceu. Talvez os seus olhos estivessem embaçados pelas muitas lágrimas, não sabemos, mas algo lhe revelou quem estava falando com ela. Esse algo peculiar foi a voz de Senhor lhe dizendo: Maria! A Bíblia nos ensina que o Senhor conhece as suas ovelhas pelo nome e que elas reconhecem a sua voz e não vão após vozes estranhas. Quando ganhamos a sua intimidade, só o pronunciar do nosso nome pela boca Dele nos desperta, nos acorda, nos faz saber que Ele está presente. Maria O ouviu, O reconheceu e clamou Raboni! Observe que nesse encontro sta fora da esfera da lógica. Ela não O questionou: como você pode está vivo se O vi morrer? É você mesmo? Onde você estava? Não, ela só O reconheceu e clamou o Seu nome. Quantas lições nós poderemos aprender daquela simples mulher!

Quero lhe fazer agora algumas perguntas: 1) naquela hora tão especial, no romper da manhã do primeiro dia da semana, onde estavam os discípulos? 2) O que eles estavam fazendo? 3) Por que?

Os discípulos estavam lá na cidade, em casa. O que eles estavam fazendo? Não tenho dúvidas, estavam confabulando sobre o futuro, porque agora a situação havia mudado completamente. O líder havia sido morto, e agora? Naquela casa temos também a resposta para a terceira pergunta. A Bíblia mostra: eles estavam em casa, de porta fechadas, cheios de tristeza e chorando ...de MEDO (Mc 16: 10; Jo 20:19)!

No cemitério, um lugar de morte, a atmosfera que o rodeava era de amor, de saudade, de ternura, de lembranças e tantos outros sentimentos que palavras humanas não conseguem descrever. Que diferença de atmosfera. A Palavra diz que o verdadeiro amor lança fora o medo. A mulher estava imersa no amor e eles estavam imersos no medo. A mulher estava imersa na alegria, e eles estavam imersos na tristeza.

Junto ao túmulo, o amor levou a mulher a tentar abraçá-Lo. A mulher tentou tocá-Lo. Ela pouco estava ligando para o que os judeus estavam programando. Ela queria mesmo era abraçar o seu senhor. Ela estava na paz, na verdadeira paz. Os discípulos, ao contrário, o medo fazia com que eles se escondessem para discutir o terrível destino que os esperava. Por isso, Jesus aparece no meio deles e a primeira palavra que diz é: Paz seja convosco!

Observe a cena que se segue: Jesus mostrou as suas mãos e o lado que fora ferido. Por que Ele não teve a mesma atitude quando apareceu para aquela mulher? Por que Ele fez isso com os discípulos? Porque a mulher já os tinha avisado que vira a Jesus, mas eles não acreditaram (Mc 16: 11). Eles podiam ser práticos, como afirmam alguns, mas lhes faltava fé. A vida feminina, presente em ambos os sexos, é uma vida que além de prática é cheia de sentimentos e de fé. A vida masculina, também presente em ambos os sexos, ela pode ser prática, mas muitas vezes é frouxa, literalmente, e covarde.

Quando os discípulos VIRAM as mãos e o lado do Senhor, aí então eles se alegraram. A mulher não pediu pra ver nada, ela apenas reconheceu a Sua amável voz e partiu para abraçá-Lo. Eis a grande diferença entre a lógica e o amor no serviço do Senhor.

Há outro caso a ser relatado aqui: existem casos piores ainda do que está trancado, chorando, triste e com medo. Trata-se daqueles que, em situações adversas, simplesmente somem, desaparecem. Isto é mais comum entre os discípulos do que imaginamos. Tomé é sempre lembrado como alguém que “só vendo pra crer”. Todos relataram pra eles a experiência do segundo tempo da aparição do Senhor – o primeiro tempo quem desfrutou mesmo foi a mulher -, mas ele não creu. Pior do que o medo é a indiferença. Melhor ser quente ou frio, mas o morno é vomitado pelo Senhor. O morno exige mais do que VER para poder crer. Tomé disse: se eu não vir em suas mãos os sinais dos cravos, E ALI NÃO PUSER OS DEDOS, E NÃO PUSER A MÃO NO SEU LADO, de MODO ALGUM acreditarei. Terrível! O morno, o ausente, mas que ainda se diz cristão, necessita mais do que simplesmente ver.

Outra linda lição nós aprendemos nesse texto: Jesus ama aos seus discípulos. Somos diferentes; alguns de nós estamos cheios de amor por Ele, e não nos importa o preço que pagaremos. Outros de nós somos medrosos, estamos escondidos em nossos conceitos e paradigmas, deixamos de proclamar porque temos medo do ridículo. Outros ainda estamos longe dos irmãos, talvez por decepções ou porque perdemos a esperança e nos esfriamos na fé, sumimos, desaparecemos. Mas veja o que diz o versículo 27 do capítulo 20 de João: e logo disse a Tomé: Põe aqui o dedo e vê minhas mãos; chega também a mão e põe-na no meu lado; não sejas incrédulo, mas crente. Quanta misericórdia! Lembro de Abrão que abandonou a terra prometida e voltou ao Egito, mas Deus o acompanhou. Não que isto agrade a Deus, mas, por causa do grande amor que nos tem, Ele, que é o próprio amor, não consegue nos abandonar. Depois disso, disse Tomé: Senhor meu e Deus meu! A fé voltou a Tomé. Aleluia!

A última parte do texto nos enche de alegria. O Senhor diz: Porque me viste creste? BEM-AVENTURADOS OS QUE NÃO VIRAM E CRERAM. A quem se referia o Senhor? A mim e a você. Que Deus possa nos ensinar que para o seu serviço o fundamental é estar no seu amor. Amém.

Djalma Marques - 2008

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Não serão aceitos ataques ou ofensas a pessoas ou grupos!