Betânias Verdadeiras

O Pensamento do Senhor para Suas Assembléias

O cenáculo em Atos 1.13 corresponde à Betânia, a “casa de figos”; e Betânia ao cenáculo. Vamo-nos ocupar com esse pensamento e, com a ajuda do Senhor, segui-lo para maior plenitude. O que temos diante de nós é o desejo do Senhor de ter ao final o que teve no princípio: ter em Seu povo, espiritualmente, o que Ele mesmo constitui por Sua presença desde o princípio. Se me pedissem para dizer em uma palavra o que sinto ser o objetivo do Senhor, diria, falando por símbolos, que é Betânia. Pois Betânia, em minha mente, corresponde mais plenamente ao pensamento do Senhor: Ele quer ter tudo na base de Betânia, constituído segundo Betânia, e ter Sua Igreja universal representada localmente como Betânia.
Vamos agora observar as sete passagens nas quais Betânia é mencionada.

O Senhor Reconhecido e Recebido

A primeira está em Lucas 10.38-40 : “ E aconteceu que, indo eles de caminho, entrou numa aldeia ( não esqueça que aldeias representam assembléias locais ); e certa mulher, por nome Marta, O recebeu em sua casa ( agora você já sabe de quem era a casa; quem era a cabeça daquela casa ). E tinha esta uma irmã, chamada Maria, a qual, assentando-se também aos pés de Jesus, ouvia a Sua Palavra. Marta, porém, andava distraída em muitos serviços e, aproximando-se, disse (...)” (RC).
Nessa primeira referência à Betânia, temos uma ou duas coisas que, em princípio, representam aquela Igreja, e aquela assembléia e aquela casa na qual o Senhor pôs Seu coração; e ressalto imediatamente uma palavra: “Certa mulher, por nome Maria, O recebeu em sua casa”. Recebeu é a palavra-chave de todo o assunto e representa precisamente aquilo que faz a grande diferença. É um vocábulo que distingue, que faz a diferença.
Você se lembra do que foi dito quando o Senhor veio da glória à terra: “Veio para o que era Seu e os Seus não O receberam” (Jo 1.11)? Também lembramos do que disse a respeito de Si mesmo: “Jesus lhe respondeu: As raposas têm seus covis, e as aves do céu, ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça” ( Lc 9.58). Se isso, de fato, irromper sobre nós com seu real significado, quando refletimos acerca de quem é dito o que lemos no primeiro versículo e quem fala o segundo, nos deixará atônitos! Aqui temos o Criador de todas as coisas, o Proprietário de tudo, o Senhor do céu e da terra, o Senhor que tem o maior direito sobre todas as coisas mais que qualquer outro ser no universo, o Senhor para quem e por meio de quem todas as coisas foram feitas: Ele veio e não tinha onde reclinar a cabeça no mundo de Sua criação, na esfera de todos os Seus direitos soberanos. Ele não foi recebido, mas como a verdadeira expressão da atitude de Sua própria família ou povo, representou-os como se dissessem: “ Este é o herdeiro; ora, vamos, matemo-lo e apoderemo-nos da herança. E, agarrando-o, lançaram-no fora “ ( Mt 21.38-39).
Mas aqui em Lucas lemos: “Certa mulher, por nome Marta, O recebeu”. “Minha igreja”, “Minha igreja”, a assembléia dEle, a casa espiritual dEle é o lugar onde Ele é recebido com alegria e onde encontra Seu descanso. Esse é o lugar dEle, Seu lugar em um mundo que O rejeita; o lugar onde Ele é reconhecido. Você percebe que quando assembléias estão sendo espalhadas sobre a face da terra, o início de uma assembléia é sempre que “recebam” a Palavra? Pentecostes foi assim: “os que de bom grado receberam a sua palavra” (At 2:41). Em Filipos, “certa mulher, chamada Lídia (...) o Senhor lhe abriu o coração para atender às coisas que Paulo dizia. Depois de ser batizada, ela e toda a sua casa, nos rogou, dizendo: Se julgais que eu sou fiel ao Senhor, entrai em minha casa e aí ficai” (At 16:14,.15). Esse é o começo da assembléia – e é assim em qualquer lugar. É uma percepção espiritual que resulta em receber de coração aberto. Esse é o primeiro fato que caracteriza a Igreja do Senhor: recebê-Lo. Isso significa dar-lhe um lugar, o lugar de honra.
Isso é muito simples, porém representa muito para o Senhor e nos faz avançar muito, pois representa algo mais do que simplesmente o Senhor se deter por um pouco em meio a Sua viagem. Isso representa que o Senhor encontrou, por fim, um lugar seguro, um apoio para os pés, um lugar que o Lhe dá o que é necessário para que possa assegurar universalmente todos os Seus direitos. Deixe-me ilustrar.
Você recorda a história trágica registrada em 2 Samuel 15, sobre a rejeição de Davi resultante da usurpação de Absalão? É uma história que causa pena: Davi foi expulso de seu lugar e deixou a esfera de seus direitos, saiu dela. Uns poucos o acompanharam, entre os quais o sacerdote Zadoque, que levava consigo a arca de Deus, mas Davi disse a Zadoque: “Torna a levar a arca de Deus à cidade. Se achar eu graça aos olhos do Senhor, Ele me fará voltar para lá e me deixará ver assim a arca como a Sua habitação” (v.25). A inferência de Davi era a seguinte: “Quando eu voltar, eu terei na cidade, no lugar da minha rejeição, aquilo que é simpático a mim, aquilo para o quê poderei voltar. Não voltarei como um estranho; eu não voltarei para nada; não voltarei para encontrar um lugar para mim: voltarei para algo que é um comigo”.
Este é o princípio que vemos aqui: a assembléia provê ao Senhor algo no qual Ele está agora por Seu Espírito. Ela declara que Ele tem um lugar de apoio num mundo que O rejeita, lugar este a que regressará um dia. Ele terá algo a que voltar, algo que está de Seu lado, o qual, por estar de Seu lado, Lhe dará a base para restabelecer Seus direitos universais, tal como Zadoque o fez para Davi.
Por isso, o Senhor quer ter aqui Sua Igreja em assembléias, assembléias locais, por toda a face da terra. Elas são testemunhas de Seus direitos num mundo onde esses direitos são disputados e negados. Elas estão aqui para proclamar: “Sim, os direitos Dele são os direitos supremos neste mundo, não os direitos do usurpador”, e sustêm esse testemunho. Quando Ele regressar, elas serão o meio, o instrumento, para Ele resgatar aqueles direitos que têm sido disputados e dos quais Ele tem sido privado. Muita coisa está relacionada com o receber ao Senhor. Ele está voltando para o que é Seu porque Ele já está lá, em Sua posse.
Agora você entende por que Satanás sempre procura, se possível, destruir a expressão local da Igreja, destruir os pequenos grupos do povo do Senhor, que vivem em união e comunhão celestiais com Ele. Satanás o faz porque eles representam os direitos do Senhor e, continuamente, por sua própria presença, disputam os direitos do usurpador. A arca do Testemunho está ali e, enquanto estiver ali, do lado do Senhor, o usurpador não pode ter influência universal. Satanás sabe que isso representa que seu reino está derrotado e que é ameaçado, e isso é um espinho constante em seu lado. E, portanto, se for possível, ele irá apaga-la, rompe-la e dividi-la; fará qualquer coisa para livrar-se daquela expressão local que seja de acordo com Cristo e na qual Cristo está. Isso é o que a Igreja tem de ser ao ser representada localmente; e isto é também o que cada crente tem de ser na terra: um lugar de apoio para o Senhor na terra, um testemunho de Seu senhorio soberano e de Seus direitos. Receber o Senhor o proporciona a Ele tanto um lugar de apoio como um testemunho.
Assim, vemos que o primeiro assunto relacionado a Betânia é de suma importância, representa um princípio de tremendo valor. A Igreja é constituída, para começar, sobre o princípio simples de que Cristo encontrou um lugar; em meio a toda sorte de rejeição, Ele encontrou um lugar.

A Satisfação de Seu Coração

Agora, continuemos com a passagem “(...)Marta, O recebeu em sua casa. E tinha esta uma irmã, chamada Maria, a qual, assentando-se também aos pés de Jesus, ouvia a Sua palavra”. Literalmente, as palavras são estas: “Que tomou assento aos pés de Jesus e continuava ouvindo”. Foi isto que irritou Marta: Maria continuava ouvindo. O que Marta realmente disse ao Senhor está no mesmo tempo verbal. Quando veio ao Senhor ela disse: “ Não Te importas que minha irmã continue deixando-me servir sozinha:” “Continue deixando-me”, porque “continuava ouvindo”.
Que significa essa cena? Ela significa aquilo que provê al Senhor o que Ele mais deseja. Ela representa a satisfação do coração do Senhor. A satisfação do coração do Senhor se realizou no que Maria fez. É ali que entendemos o significado de Betânia. Em Mateus 21, encontramos a história da figueira, Jesus estava se movendo entre Jerusalém e Betânia. Ele esteve em Jerusalém e viu as coisas no tempo, e Seu coração foi machucado, traspassado pela agonia do desapontamento. Olhou tudo a Sua volta; porém nada disse e voltou para Betânia. Pela manhã, estando a caminho, teve fome e, avistando uma figueira, dela se aproximou para ver se porventura havia nela fruto, porém, nada encontrou. Então, disse: “Nunca mais nasça fruto de ti”, e ao retornarem os discípulos notaram que a figueira havia secado e estava morta, e chamaram a atenção para esse fato.
Aquela figueira, como sabemos, se refere a Jerusalém e representava o judaísmo daquele tempo. O desapontamento do coração que o Senhor teve no templo foi o mesmo que sentiu ao vir faminto à figueira e não encontrar fruto – os dois fatos são um. Toda aquela ordem de coisas que constituem o judaísmo, então, sai de Sua esfera de interesse: o judaísmo se desvanece pelo resto da era: “Nunca mais nasça fruto de ti” ( “nunca mais” em grego, é “até a era”). Se não O pode satisfazer, então, se desvanece; é uma arvore seca que nada dá ao Senhor. Mas no momento em que aquele desapontamento do coração se faz sentir tão agudamente, e é por Ele representado daquela maneira, então, Ele vai para Betânia, e Betânia quer dizer “ a casa de figos”. Nem no templo nem em Jerusalém o Senhor encontrou satisfação, porém em Betânia. Por isso, Ele sempre ia para lá. Para Ele, a satisfação do coração não estava no sistema de religião frio, sem vida e formal daqueles dias, mas na atmosfera viva, vibrante e calorosa do lar em Betânia. Ele sabia que, ainda que Suas palavras fossem rejeitadas em Jerusalém, seriam aceitas ali, e ouvidas com avidez, e que ali haveria sempre alguém que “continuaria” ouvindo.
Eu estou impressionado com Atos 2, onde é dito que, depois do Pentecostes, aqueles que creram “perseveraram na doutrina dos apóstolos” (v.42). Foi ali que a Igreja começou e essa é sua característica: perseverar na doutrina dos apóstolos. Estamos tão acostumados a essas palavras que elas não parecem significar muito para nós. Posso apresentar uma maneira prática de ilustrar isso?
Nessas páginas, algumas coisas estão sendo ditas. Agora, você as está lendo; depois, continuará com seu dia-a-dia e , talvez, irá se lembrar delas por algum tempo – talvez você se lembre de Betânia por um longo tempo. Futuramente, a menção de Betânia lhe trará algumas recordações, de algo que você leu. Você poderá falar dessa mensagem descrevendo-a como boa ou não, como uma mensagem interessante ou algo assim. Porém, que diferença entre isso e sair daqui “perseverando na doutrina”! Você tem de saber interpretar isso por si mesmo e perguntar-se: “O que significa para mim perseverar nisso?”
Um sinônimo para perseverar é persistir. “Persistir na doutrina dos apóstolos.” Há uma grande diferença entre persistir na doutrina e apenas sair dizendo: “Bem, essa foi uma mensagem muito bonita!” Persistir representa a aplicação prática e positiva do coração à verdade, e isto constitui a Igreja de Cristo: ela é o lugar onde o que vem Dele é recebido, e todo o coração, a vida inteira, é dada àquilo. Há uma consagração absoluta àquilo.
E, provavelmente, foi justamente disso que Marta não gostou. Maria se entregou totalmente àquilo, ela se deu a si mesma àquilo, e é isso o que o Senhor busca. Eu me pergunto qual seria o resultado se tivéssemos a mesma atitude em relação a cada palavra de verdade que se tem acumulado, não posso deixar de perguntar: qual é a porcentagem de verdadeira aplicação daquela verdade por parte dos que a ouvem? É justamente por causa daqueles que , no princípio, tomaram uma atitude muito prática em relação às coisas que escutaram, e nelas perseveraram, que houve eficácia ali (em Atos 2:42). Eles não saíram dizendo: “Que sermão maravilhoso Pedro pregou hoje!” Não, eles perseveraram na doutrina dos apóstolos.
Isso é o que o Senhor deseja. Isso é o que satisfaz o Seu coração. Maria tomou seu assento aos Seus pés e continuava ouvindo Sua Palavra, e isso Lhe satisfez o coração, enquanto tudo o mais O desapontava. A satisfação do coração do Senhor tem de ser uma característica da vida do Seu povo, e satisfação do coração, para Ele, é precisamente isto: que devoremos Sua palavra, que a estimemos corretamente, que a consideremos como aquilo que é supremo. A assembléia tem de ser a “casa de figos” para o Senhor.

O Serviço que Sofreu um Ajuste.

Agora, observemos Marta: “Marta, porém, andava distraída em muitos serviços e, aproximando-se, disse (...). O original grego é muito forte: significa que ela foi até Ele e O envolveu na situação. Implica que ela O considerava como responsável, e se ela houvesse dito tudo o que pensava, teria dito: Tu és o responsável por tudo isso, Tu estás envolvido nisso também, e a Ti compete pôr tudo em ordem”. Isto é o que está implícito nas palavras do idioma original: considerar o Senhor como envolvido naquela e que Ele poderia, se quisesse, e deveria, pôr tudo em ordem. Implica que ela “explodiu”. Ela havia acumulado seu ressentimento e, por fim, não podendo agüentar mais, ela se dirigiu a Ele e explodiu: “Senhor, não te importas que minha irmã me deixe servir só? Dize-lhe, pois que me ajude” (v.40)
Quero que você capte a força da situação toda, e isso o ajudará a compreender Marta. Temos de entender a inclinação e a posição de Marta. A frase “distraída em muitos serviços” não comunica-nos suficientemente o que realmente estava acontecendo. Tiramos dessa tradução uma idéia totalmente imperfeita, segundo me parece. De como exatamente as coisas eram. A palavra grega aqui significa “estar distraída”, “puxada em diferentes direções”. Provavelmente a aflição dela estava estampada em seus rostos. E como que se afligia? Com os muitos afazeres da casa, talvez com muitos pratos – preocupações de todo tipo. E o Senhor disse a Marta: “Marta, você está muito preocupada com todo tipo de considerações secundárias; você tem mais tarefas do que pode manejar. Porém, há somente uma coisa que é realmente necessária.”
Agora, você está começando a entender a situação, certo? Simplesmente era necessário um ajuste dos fatos por parte de Marta, de maneira que o mais importante pudesse ter seu devido lugar. Não é que o Senhor não simpatizasse com o fato de Marta lhes preparar uma refeição, mas Ele viu que ela estava tornando esse assunto da comida em algo tão trabalhoso e extensivo que estava saindo fora do normal e estava colocando o que era mais essencial num lugar inferior ao do não-essencial.
Sim, preparar uma refeição pode ser correto, porém que coloquemos as coisas na sua proporção. Velemos para que as coisas temporais não se sobressaiam em relação às espirituais. Não nos tornemos ansiosos e distraídos com o que é passageiro de modo que o que é espiritual seja ofuscado. Pois aquilo que deve ser feito para manter todas as demais coisas em seu devido lugar – elas são legítimas quando têm seu devido lugar – é o que vem dos lábios do Senhor.
É uma questão de proporções, uma questão de onde pôr a maior ênfase. É possível permitirmos que as coisas dessa vida nos envolvam com tal ansiedade que o que é verdadeiramente maior não recebe nem sequer uma oportunidade. E todos estamos de acordo agora, e não temos mais disputa com o Mestre acerca de Maria, depois de vermos as coisas desse modo. O que era necessário é que houvesse um ajuste das coisas, de tal maneira que, enquanto todos os outros assuntos tinham um lugar, e um lugar correto, eles estivessem em seu lugar e em sua medida apropriada; enquanto as coisas supremas pudessem predominar sem ser submergidas nos assuntos inferiores que, ao final de contas, não são permanentes.
Bem, essa era exatamente a situação. Na Casa de Deus, o que importa mais do que todos os nossos esforços, todas as nossas fervorosas atividades em fazer mil e uma coisa da obra cristã, a única coisa que importa é que venhamos a conhecer o Senhor e a dar-Lhe a ocasião de fazer-se conhecido. Atividades agitadas muitas vezes, no que é chamado “ a igreja”, excluem a voz do Senhor, excluem a Ele; ocupamo-nos tanto com o que nós mesmos fazemos e tão pouco com o que Ele tem oportunidade para dizer. O lugar que satisfaz ao Senhor é o lugar onde há ajuste às coisas supremas

Ungüento Derramado de Grande Valor.

Para ver o quarto aspecto de Betânia, vamos ler Mateus 26: 6-13. A mesma aldeia é mencionada, e agora vemos ‘uma mulher com um vaso de alabastro, com ungüento de grande valor”. Esse acontecimento primeiramente nos fala a respeito do reconhecimento do valor do Senhor Jesus. Todos os que observara a cena disseram, de certo modo:”Ele não é digno disso”. Naturalmente, não expressariam dessa maneira. Aquela mulher, no entanto, reconheceu o valor do Senhor – que Ele valia o que é “muito precioso”. Era a excedente preciosidade de Cristo que estava sendo posta em evidência aqui, como algo que foi reconhecido.
Isso é, em meu parecer, a principal característica daquela cena. Esta é uma característica de Betânia, é uma característica do cenáculo, é uma característica de “Minha Igreja”, é uma característica da assembléia do Senhor, é uma característica do povo que é segundo o coração Dele: o reconhecimento de Sua excedente preciosidade, de Seu valor supremo, que não há nada demasiadamente precioso para derramar a Seus pés. “Para vós outros, portanto, os que credes, é a preciosidade” (1Pe 2:7).
Isso é muito simples; no entanto, é, outra vez, algo que causa uma profunda apreciação por parte do Senhor Jesus. É novamente algo que caracteriza aquela aldeia muita amada. Em outras palavras, é algo que faz a assembléia do Senhor ser de grande valor para Ele: ali Seu valor é reconhecido e Ele é apreciado e estimado em Seu valor verdadeiro. Isso é o que deve marcar a Casa do Senhor. É uma característica que deve ser desenvolvida mais e mais. É isso que temos de atentar: que tenhamos um reconhecimento espontâneo e sempre crescente da preciosidade e do valor do Senhor Jesus.
Ah, quão diferente isso é do sistema eclesiástico meramente formal! Não podemos exatamente dizer dele que sua característica mais marcante seja uma verdadeira apreciação de coração do valor do Senhor Jesus. Onde há essa apreciação, você tem a assembléia; onde não há, não importando quão elaborada e adornada seja a apresentação, você não tem a assembléia, não é o lugar do deleite do Senhor.
Penso ver ainda algo mais aqui. O quebrantamento do vaso de alabastro dá expressão à preciosidade do ungüento. O “frágil vaso de barro” é que, ao ser quebrado, torna possível a manifestação e a expressão das glórias de Cristo. Enquanto aquele vaso está inteiro e forte, são em si mesmo, e é algo para o que você olharia e notaria por si próprio; algo que levaria você a dizer: “Que belo vaso! Que maravilhosa peça de alabastro!” – enquanto está inteiro, você não vê o que ele guarda em secreto. Nós podemos considerar homens como sendo de esplêndido intelecto, pregadores maravilhosos e assim por diante – ou seja, ficarmos ocupados com o vaso, o recipiente, e o segredo ficar selado, escondido. Mas, quando o vaso é quebrado e despedaçado, então, você encontrará o tabernáculo secreto da glória de Cristo.
Você pode ver isso em Paulo, eu suponho que Saulo de Tarso tenha sido um maravilhoso pedaço de alabastro no sentido intelectual, moral e religioso. Ele nos conta que era assim, ele nos conta tudo o que era, tudo em que ele se gloriava e aquilo a que os homens olhavam e, sem dúvida, louvavam. Mas, ele foi esmagado, e já não se vê mais Saulo, e já não se vê mais Paulo, mas a beleza e a glória de Cristo. A fragrância de Cristo se manifesta quando o vaso é quebrado.
E, amados, é justamente isso que ocorre em nossa experiência. À Igreja, à verdadeira Igreja, vem sendo permitido ser despedaçada e novamente despedaçada, e os membros individualmente são tão freqüentemente quebrados e novamente quebrados; porém, não foi provado, ao longo da história, que para a Igreja e para os indivíduos, o quebrar, o despedaçar, o esmagar têm produzido uma expressão das glórias de Cristo de forma maravilhosa? É isso mesmo. Cada vez que passamos por uma nova experiência de ser quebrantados – às vezes o dizemos de outra maneira, dizendo que estamos sendo levados mais profundamente para a morte de Cristo, que estamos entrando numa experiência nova da cruz; não importa como expressemos, o significado é quebrantamento, o quebrar do vaso; porém, creia-me, amado, - isso significa uma expressão e conhecimento mais plenos da glória de Cristo e nos levará a uma nova apreciação Dele. Nós O descobriremos no tempo de nosso quebrantamento. E, da mesma maneira, a Igreja passa pelo caminho da cruz, mas alcança, por meio do quebrantamento, o valo do Senhor Jesus.

O Poder da Sua Ressurreição

Prossigamos para o bem conhecido capítulo 11 do Evangelho de João. Aqui, Betânia está de novo em foco e, dessa vez, a ressurreição de Lázaro nos é apresentada. Não passaremos por toda a história, tratando dos detalhes, mas simplesmente para a conclusão. Betânia, nesse caso, tornou-se a cena, a esfera, da manifestação do poder da ressurreição, da vida de ressurreição. Há também muitos outros fatos nesse capítulo, como uma maravilhosa expressão de amor, bem como uma maravilhosa expressão de comunhão. Quando estava longe de Betânia, o Senhor disse a Seus discípulos: ”Nosso amigo Lázaro adormeceu” (v11). “Nosso amigo”; não “Meu amigo”, mas “Nosso amigo”. Isso é comunhão. “Amava Jesus a Marta, e a usa irmã, e a Lázaro” (v.5). Isso é amor. Todas estas são as características de Betânia; mas a característica que se destaca aqui é a manifestação de Sua ressurreição, o poder de Sua ressurreição, a vida de ressurreição.
E aqui, outra vez, Betânia é uma ilustração da Igreja que Ele está edificando. Sabemos disso pela Epístola de Paulo aos Efésios, a “Epístola da Igreja”, como a chamamos. De pronto, lemos que Deus “nos deu vida juntamente com Cristo” (2.5). A Igreja é o vaso no qual o poder de Sua ressurreição é exibido; e, de novo aqui, não somente testificamos do fato, da doutrina, mas temos de aplicar o teste: que a assembléia, de acordo com a mente do Senhor, é onde Seu poder de ressurreição e de vida são exibidos.
Eu sei que quando coisas assim são ditas, com freqüência há um sentimento vago que permanece: “Sim, sabemos que devemos estar crucificados com Cristo; sabemos que devemos ter sido ressuscitados com Cristo, e é muito verdadeiro que temos de conhecer o poder de Sua ressurreição e Sua vida de ressurreição”. Isso é dito e repetido, porém o deixamos ali. Mas a questão é como isso tem de ser?
Bem, temos de reconhecer que o Senhor trouxe à existência Sua Igreja com o propósito específico de manifestar o poder de Sua ressurreição, e temos de dedicar-nos ao Senhor para esse fim. Esta é a maneira: reconhecendo que o objetivo, o próprio objetivo de estarmos na Igreja, no Corpo, é para que Ele possa mostrar em nós Seu poder de ressurreição e de vida. Ao reconhecer isso, temos um acordo definido, com o Senhor de que somos consagrados a Ele; nossa responsabilidade termina aí, se isso brotou, de fato, de nosso coração, e o Senhor iniciará Sua obra.
Não seremos capazes de ressuscitar e nós mesmos assim como não podemos crucificar-nos, porém temos de reconhecer que o tratamento do Senhor conosco tem isso em vista. A fim de mostrar o poder de Sua ressurreição, Ele irá, muito freqüentemente, adotar conosco a atitude de deixar que as coisas se desenvolvam muito além do que qualquer poder humano possa remediar ou salvar; de permitir que as coisas cheguem a tal ponto que não haja nenhum outro poder em todo o universo que possa fazer, seja o que for, para salvar a situação. Ele permitirá que a morte e a desintegração atuem de tal maneira que nada, nada no universo, possa fazer algo, a não ser o poder de Sua ressurreição.
Assim chegaremos ao lugar em que Abraão chegou, o qual tornou-se a grande prefiguração da fé que leva diretamente para a ressurreição: “Considerou seu próprio corpo já como praticamente morto” (Rm 4.19 – segundo a versão usada pelo autor). Esta é a frase empregada pelo apóstolo acerca de Abraão:”Já como praticamente morto”. E Paulo também chegou a esse ponto: “Contudo, já em nós mesmos tivemos a sentença de morte, para que não confiemos em nós, e sim, no Deus que ressuscita os mortos” (2 Co 1.9). Em relação a qualquer outra coisa que os homens sejam capazes de fazer na esfera da criação, seus recursos terminam quando a morte, de fato, ocorre; já não podem fazer mais nada. A ressurreição é um ato de Deus e somente de Deus. Os homens podem fazer muitíssimas coisas enquanto têm vida, mas quando não há vida, somente Deus pode fazer algo. E Deus permitirá que Sua Igreja e seus membros cheguem muitas vezes a tais situações que estejam completamente além de toda ajuda humana, a fim de que Ele possa dar a demonstração, que é a Sua própria demonstração, na qual nenhum homem tem qualquer lugar para se gloriar.
Assim disse o Senhor Jesus: “Esta enfermidade não é para morte, e sim para a glória de Deus, a fim de que o Filho de Deus seja por ela glorificado” (Jo 11.4). Glorificado! Temo-nos dedicado a este curso das coisas, ou seja, temo-nos entregue a uma linhagem de desespero humano, mas quão vagarosos somos para aceita-la quando ela está ocorrendo. Quando as coisas chegam a uma situação desesperadora, damos coices para todo lado e pensamos que tudo deu errado. Mas pode ser que para o Senhor esteja dando muito certo! Sim, a situação é desesperadora; aquela consideração não remove que ela seja desesperadora, a sua horribilidade, mas se essa mesma situação dará ao Senhor a Sua suprema oportunidade para levantar Seu testemunho de preeminência, então, isso está certo, ou seja, estará certo com esse objetivo.
Quando, por fim, na eternidade, lermos a história da Igreja, a qual é Seu Corpo, e virmos tudo pelo que ela realmente passou, teremos de confessar que nenhuma instituição humana e nada produzido pelo homem poderia ter sobrevivido ou poderia ter passado por aquilo que os santos passaram. Quando isso é entendido à luz da eternidade e considerado pelos verdadeiros padrões espirituais, nós diremos que ninguém a não ser o Deus Todo- Poderoso poderia ter alcançado aquilo e poderia ter levado a Igreja ao alvo: que ela se tenha tornado, sem sombra de dúvida, o veículo da expressão da “suprema grandeza do Seu poder” (Ef.1.19), e isso é muito significante. Se para isso é necessária “a suprema grandeza de Seu poder”, isso diz muito sobre aquilo de que temos de ser livrados, não é mesmo? Se “a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens” (1Co 1.25), o que então, representa “a suprema grandeza de Seu poder”?
Bem, isso é indicado na ressurreição, pois estas palavras estão relacionadas a ela: “ A suprema grandeza do Seu poder para com os que cremos, segundo a eficácia da força do Seu poder, o qual exerceu Ele em Cristo, ressuscitando-O dentre os mortos” (Ef 1.19,20). E isso é “para com os que cremos”. A Igreja, o testemunho de Betânia, tem de ser um testemunho do poder da ressurreição do Senhor, e se Seus métodos conosco o fazem necessário, então, tomemos encorajamento e consolo do fato de que e assim que haveremos de ser uma verdadeira expressão do que Ele deseja de Sua Igreja.

Celebração da Sua Vitória

Prossigamos para o capítulo 12 de João. “Seis dias antes da Páscoa, foi Jesus para Betânia, onde estava Lázaro, a quem Ele ressuscitara dentre os mortos. Deram-lhe, pois, ali, uma ceia; Marta servia (evidentemente ela não havia entendido as palavras do Senhor a ela, como que dizendo que servir estava errado; ela ainda está servido, porém está tudo certo agora), sendo Lázaro um dos que estavam com Ele à mesa. Então, Maria, tomando uma libra de bálsamo de nardo puro, mui precioso, ungiu os pés de Jesus e os enxugou com os seus cabelos; e encheu-se toda a casa com o perfume do bálsamo” (vs 1-3).
Aqui temos a festa, e a festa tem vários elementos. Um, representado por Maria e sua ação, indica adoração. Uma vez mais é a apreciação de Cristo que está em foco. Isso é adoração. Adoração, de acordo com o pensamento de Deus, é sempre simplesmente a apreciação do Senhor Jesus, é fazer subir diante de Deus aroma suave de uma apreciação de coração de Seu Filho. Isso pode soar simples, porém a adoração, em sua essência mais pura, é aquilo que pensamos do Senhor Jesus sendo expresso ao Pai. Isso é adoração. A assembléia é para isso. Betânia se refere a isso.
Marta – sim, Marta servia, porém agora é um serviço ajustado. Ele ainda está servindo em uma casa de ressurreição. Aqui está o serviço ajustado; e o serviço na casa do Senhor está de acordo com Sua mente, quando está em comunhão com adoração e mantém com ela uma correta proporção. Vemos que agora há um ajuste entre as irmãs. Antes elas estavam em desarmonia, porque as coisas estavam fora de proporções e fora de lugar; agora o ajuste foi feito e elas estão sempre se entendendo bem. Isso é serviço ajustado.
Lázaro estava à mesa e, sem dúvida, ele representa o princípio da vida, da vida de ressurreição. Aí temos de novo uma marca distintiva da casa espiritual do Senhor. Temos, pois, adoração, serviço ajustado e vida de ressurreição.
Não obstante, sempre há algo sinistro por perto: “Por que não se vendeu este perfume por trezentos denários, e não se deus aos pobres?”(v.4). Quando tivermos a assembléia exatamente como o Senhor a quer, sempre se verá que o diabo está espiando muito de perto. Isso pode ser um elogio para assembléia, pois qualquer coisa para a qual o diabo não olha com ciúmes certamente não é algo que satisfaça o coração do Senhor. Mas é sempre assim: basta começarmos a ter algo que esteja de acordo com o coração do Senhor e encontraremos algo sinistro rondando com a intenção de destruir aquela adoração e de desviar aquele apreço pelo Senhor. Isto se torna uma característica da própria assembléia: que o diabo olhe com ciúmes para aquilo que o Senhor está obtendo, pois ele deseja ter aquilo para si.
A Igreja é aquilo que proporciona ao Senhor Jesus o que Lhe convém ter, e desde a eternidade o diabo tem-se ocupado em roubar o Senhor disso e, se puder, fará isso na assembléia, porque a assembléia é onde o Senhor obtém aquilo em que colocou Seu coração.

Para Fora e Para Cima

Para concluir, vejamos a última citação de Betânia, Lucas 24.50-52: “E levou-os fora , até Betânia; e, levantando as mãos, os abençoou. E aconteceu que , abençoando-os Ele, se apartou deles e foi elevado ao céu. E adorando-O eles, tornaram com grande júbilo para Jerusalém”. Observemos três expressões: “levou-os fora “, “abençoando-os” e “foi elevado”: fora juntamente com o Senhor, para Seu lugar separado, sob a sua benção e vinculados a Ele no céu – ou, usando as palavras de Paulo, “juntamente com Ele (...) nos fez assentar nos lugares celestiais” (Ef 2.6)
Isso é Betânia, essa é a Igreja isso é o que o Senhor quer ter hoje na vida do Seu povo.
Volte a considerar Betânia mais uma vez e deixe seu coração exercitar-se nesses tópicos, e busque muito definitivamente que o Senhor tenha em você exatamente essas características que estão de acordo com a mente Dele. E o que nós fazemos individualmente, procuremos faze-lo nessas comunidades, nessas assembléias, com as quais estamos conectados, de tal maneira que sejam verdadeiras Betânias, a expressão da aldeia da grande cidade de Deus, a Jerusalém celestial.

T. Austin-Sparks
Publicação: 17/04/2006





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