Fundamentalista, eu?

É uma bênção não fazer parte de nenhum grupo religioso organizado. Toda organização possui uma série de dogmas implícitos ou explícitos que devem ser seguidos pelos componentes do grupo. Assim, se determinado grupo crê no batismo por aspersão, um recém chegado ao grupo também deverá acreditar nesse tipo de batismo, em que pese possa discordar do assunto. O mesmo se aplica ao uso do falar em línguas, à doutrina do arrebatamento, ao entendimento da Trindade, da ceia, do governo da igreja, da forma de se reunir, do uso de hinos e de uma série de outras questões não tão simples que envolvem a vida cristã. Os grupos, entretanto, necessitam, para sua subsistência, constância e "tranquilidade" padronizar muitos assuntos relativos à fé, embora alguns destes tenha aplicação mais individual que coletiva, mas o fato é que o grupos organizados, cedo ou tarde, sentem a tendência irresistível de padronizar sua fé. Você já viu esse filme antes, não é?

Mas de onde vieram os grupos?

De fato, Deus nos deu uma vida individual e secreta que necessita de momentos para desfrutar da presença de um Pai que vê em secreto e também retribui em secreto. Mas a vida cristã também é coletiva. Daí surgirem grupos para agregar os cristãos, aos quais chamamos comumente de igreja.
Entretanto, será que o viver coletivo só pode ser expresso por um ajuntamento constante entre cristãos que fazem parte do mesmo grupo e possuem um "padrão" de fé? Só existe essa forma de viver coletivo? Quais os benefícios e malefícios desse tipo de viver? Questões intrigantes, não são?
Permita-me tecer algumas considerações a respeito. Creio que é esse viver coletivo, onde o indivíduo faz parte de um grupo fixo, estável e organizado de pessoas, seja o responsável maior pela padronização da fé do grupo.
Não sou estudioso de sociologia, mas, pela experiência, sabemos que as pessoas se ajuntam ou se aproximam tendo em vista suas "afinidades", isto é, ficam com aqueles com os quais se sintam bem. Eu mesmo já ouvi de um pastor que deveríamos procurar um grupo com o qual possamo-nos sentir bem. Nada contra, pois não sou adepto do masoquismo, mas a idéia de que devo seguir meus sentimentos também não me deixa confortável, pelo simples fato de que algo que hoje é agradável, amanhã poderá não ser e vice-versa. Realmente, enganoso é o coração do homem. Mas isso também não nos leva a lugar algum. Para onde ir então? Já sei. Vamos então eleger algumas verdades primordiais e inegociáveis e outras secundárias e assim tentar conviver com a igreja de Deus. Fácil? Em princípio, sim, mas, na prática, não. Digo por quê: o que é secundário para você poderá ser primordial para mim. Também são critérios subjetivos. Voltamos à estaca zero. Que fazer então? Melhor ficar em casa assistindo um telejornal ou lendo um bom livro? Não necessariamente, pois essa vida que vivemos é uma vida coletiva. Necessitamos, no íntimo, ter comunhão com os santos, sentimos falta de abraços, de confessar erros, de ter esperança com a fé do outro, de ajudar e sermos ajudados, temos filhos que também querem viver juntos, querem encontrar sua identidade e a sua “tribo”. Sem comunhão, como sermos edificados, como orar pelos outros ou receber oração e apoio? Não fomos criados para vivermos isolados. Mas algo misterioso ocorre quando estamos juntos por muito tempo... começamos secretamente a criar o padrão de fé do nosso grupo, desejamos convencer os demais para termos os mesmo falar... daí institucionalizamos as coisas e, pronto, temos nossa própria religião, fresquinha e agradável como uma luva sob medida (para nós). Para fugir dos grupos organizados, organizamos outro um tanto melhor. Parece uma armadilha, na qual quase todos caímos. Mas como escapar dela?

Será que os Evangelhos podem ajudar-nos?

Vejamos então...qual era mesmo o grupo do Senhor Jesus?
- o dos apóstolos! Os apressados diriam...não seja tão rápido, meu amigo.
O Senhor, quando criança, foi parar numa sinagoga para, digamos, ter comunhão com alguns compatriotas. Em seu ministério, o Senhor conviveu com diversos tipos de pessoas, desde prostitutas até líderes religiosos. Isso sem falar de seus "amigos" de Betânia (se quiser ser o livrete homônimo, clique aqui). Até mesmo entre os apóstolos, como eram diferentes entre si? Havia impulsivos, religioso, incrédulo e até um traidor, sem falar nos calados. Parece que o Senhor realmente tem prazer na diversidade de sua Criação. Creio estar aí o segredo para não cair na "armadilha": ter comunhão com todos os santos, especialmente com "os diferentes", sem pretender criar um grupo, mas apenas ter comunhão no exato sentido da palavra: receber e dar e não somente despejar em alguém um rol de crenças e pontos de vista. Isso nos cura, irmãos. Quem já experimentou, sabe quão agradável é conviver com os santos, especialmente, com aqueles com os quais você não concorda inteiramente, mas nem por isso deixa de estar junto e compartilhar da vida maravilhosa do Senhor Jesus. Isso nos cura, especialmente, da doença do fundamentalismo cristão.

Fundamentalista, eu?

É...descobri-me fundamentalista outro dia. Era só o que faltava... Pensei já ter superado tantas amarras do passado religioso, mas eis-me fundamentalista e da pior espécie. Tendo comunhão com um irmão sobre arrebatamento, notei que ele cria que toda igreja passaria pela grande tribulação e, só no final desta, todos os santos seriam arrebatados para então serem julgados no tribunal de Cristo, quando então os vencedores iriam para as bodas e os demais para o "ranger de dentes". Pois bem. Sempre acreditei nos três tipos de arrebatamento: um antes, um durante e um no final da grande tribulação, assim como me foi ensinado. Vendo o irmão compartilhar sobre o assunto, tentei me colocar no lugar de alguém que cresse e, mais ainda, alguém que fosse realmente experimentar a grande tribulação. Foi uma experiência horrível. Nunca tinha, nem ao menos, pensado em pensar nisso. Mas foi uma libertação. Vi como eu era fundamentalista. Uma pessoa assim jamais nem ao menos considera a opinião do outro, não está aberta para comunhão, nem consegue dialogar sobre a mera hipótese de o outro ter razão (não esqueça que pode haver um monólogo entre duas pessoas. Os cristãos costumamos fazer isso de vez em quando).
Que libertação! Que bênção é poder ouvir! Que bênção é estar aberto e pronto até mesmo para abandonar opiniões e pré-conceitos que nem sabemos existirem. Não estou dizendo que não devemos ter certeza de nossa fé, não. Mesmo porque certeza e fé são quase sinônimas. Mas gostaria de tentar expressar o sentimento da bênção que é estar aberto para possibilidades, simples possibilidades, grandes possibilidades. E isso só é possível através de convivência com "os diferentes", com aqueles que não pensam exatamente como nós, mas crêem no mesmo Cristo que nós e bebem da mesma fonte espiritual. Isso é libertação. Talvez assim possamos chegar à unidade da fé de que fala Efésios.
Talvez esse tipo de convivência também seja a alternativa àqueloutra que padroniza nossa fé, como uma linha de montagem neotestamentária. Quem sabe...
Passarei a ter cuidados com as interpretações esclusivas, com a via de mão única, com os livros banidos e os "mais indicados", com a loja de cristais cheios de verdades sem cor na qual se converteu o educado viver cristão. Ah...ainda creio no arrebatamento antes, durante e depois da grande tribulação, mas estou um pouco menos fundamentalista, graças a Deus.

(sobre o outro lado do fundamentalismo, sugiro o texto: Sou Fundamentalista? do site chamada.com.br)

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