Você tem provas disso?

Você têm provas disso? Essa era a frase preferida do meu amigo Ferreira. Fizemos amizade na metade da faculdade. Sentávamos no fundo da sala, com os alunos mais velhos. Era só eu fazer um comentário leve(ano) e lá vinha o Ferreira: - você tem provas disso que está falando? Tentava convencer o Ferreira que era só um comentário, poxa, nada sério, só um comentário, mas o Ferreira era inflexível.
Fora esses momentos, o Ferreira era um cara legal. Conversávamos sobre diversos assuntos. Eu sempre fui impetuoso ao julgar fatos e situações, principalmente acerca das “coisas-que-não-funcionam”.
Estudávamos em Brasília e nossa faculdade era particular. Eu trabalhava oito horas por dia e ia pra faculdade aprender uma profissão à noite com o que sobrava de atenção. Tanto eu quanto o Ferreira vínhamos de famílias pobres. Ele trabalhava em um tribunal que eu não me lembro agora e depois ia para a Faculdade, sempre carregando uma pochete preta embaixo do braço.
Gozado o Ferreira. Eu já era cristão e ele, não, mas, mesmo assim, o Ferreira tinha algo mais. Havia nele uma lucidez acerca de julgamentos que sempre me impressionou. Como um não-cristão pode ser tão correto acerca de coisas que falamos tão levianamente, diversas vezes, ao dia?
Não, não pense que o Ferreira era chato. Era um camarada legal. Só que ele media bastante o peso de suas palavras e a repercussão delas, e isso me marcou.
A Bíblia está cheia de passagens que nos exortam a cuidar da língua, mas o Ferreira não lia a Bíblia! Ele só a praticava.
Ultimamente tenho lido e ouvido comentários maldosos acerca de pessoas e grupos cristãos. E como é tentador embarcar neles e pisar, nem que seja um pouquinho, no pescoço de alguém e de algum grupo, tecendo criticas ácidas e sem fundamentação, principalmente quando fomos ofendidos. Isso é uma doença ou uma ferida. Isso é típico de pessoas, como eu, que ainda não conhecem plenamente o que é julgar.
Em um julgamento, o julgador tem de estar acima dos envolvidos, isto é, tem de ser superior. Quem sou eu? Sou superior a meus irmãos? Em segundo lugar, o julgador tem de ter uma investidura ou comissionamento. Quem me instituiu juiz para julgar servo alheio? Deus não foi. Em terceiro lugar, o julgador deve conhecer todos os fatos envolvidos. Nesse quesito também falhamos, porque, quantas vezes, repassamos informações as quais não sabemos se são verdadeiras. Não temos como checar a origem e confirmar os fatos, mas mesmo assim “apenas” repassamos. Em último lugar, o julgador não pode ter interesse algum na causa julgada, isto é, não pode ter envolvimento emocional algum. Que Deus tenha misericórdia de mim! Seremos reis, irmãos, e não comentaristas da vida alheia (Ap 5:10)! Havemos de julgar anjos (1 Co 6:3)! O próprio arcanjo Miguel, quando contendia contra o diabo, que é um querubim, não ousou proferir difamação contra ele (Jd 1:9). Que sério é julgar.
Saudades do Ferreira... depois da formatura, nunca mais nos vimos. Ele deve ser juiz em algum tribunal País afora, assim como deve ter abandonado aquela pochete preta, mas... nesses dias, como esse traço do seu caráter tem me vindo à memória: você tem provas disso? Dizia meu amigo Ferreira.

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