Será que a Igreja Emergente é Totalmente Emergente?

Um convite para a reflexão e o diálogo aberto
por Frank Viola
Parte 1


Estou escrevendo este artigo aos meus irmãos e irmãs em Cristo, líderes e não-líderes, que pertencem ao que veio a ser chamado de comunhão da igreja emergente*.
A influência desta comunhão tem sido incrível. Tanto assim, que pelo menos a meu ver, pode ser melhor descrita como um fenômeno e tem progredido a cada dia.
Eu sou um estudante de história eclesiástica. Meus estudos me levaram a fazer a seguinte observação: cada fenômeno e movimento que se propôs a reformar ou renovar a igreja nasceu com profundas deficiências e fragilidades. E essas lacunas e insuficiências nunca foram abordadas até que fosse tarde demais para serem corrigidas. Na minha vida, tenho visto que este princípio é verdadeiro para o movimento carismático, para o chamado Movimento de Jesus, para o movimento Terceira Onda, como também para o movimento das igrejas nas casas... só para citar alguns.
Pelo fato de o fenômeno da igreja emergente ainda estar na sua infância, as suas lacunas e deficiências ainda podem ser tratadas. Como cristãos que crescemos na moderna igreja atual, mas estamos cansados dela, temos uma nova oportunidade para mudar o curso da história da igreja. Sei que isto pode parece ser uma declaração ultrajante. No entanto, é verdade. No nosso tempo atual, tem-nos sido aberta uma pequena janela para que possamos vislumbrar a visão dos primeiros apóstolos, o que implicará uma completa revisão de nossa fé cristã, e nos possibilitará sermos fiéis e honrarmos o coração de Jesus.
Principais Vantagens do Fenômeno da Igreja Emergente
Seguem-se temas que surgiram no seio do fenômeno da igreja emergente, com os quais me congratulo e os aplaudo sem reservas:
1. O fenômeno da igreja emergente está explorando novas formas de renovar e recontextualizar a mensagem do evangelho para as pessoas. Não só tenho de aplaudir essa nova ênfase, mas vergonhosamente admito que tenho muito a aprender nesta área. Assim, gostaria de aprender mais com aqueles que têm escavado mais neste domínio.
2. O fenômeno da igreja emergente tem enfatizado a tão agradável vida de comunidade e os relacionamentos de fé.
3. O fenômeno da igreja emergente tem dado ênfase à necessidade de repensar a concepção moderna da Igreja, nos seus métodos, seus programas, suas tradições e sua estrutura.
4. O fenômeno da igreja emergente tem dado nova ênfase a Jesus nos Evangelhos, em oposição à ênfase exclusiva no Jesus dos Escritos de Paulo.
5. O fenômeno da igreja emergente tem dado ênfase legítima na importância do funcionamento do Corpo.
6. O fenômeno da igreja emergente tem dado nova ênfase sobre a importância do contexto da narrativa.
7. O fenômeno da igreja emergente tem esvaziado a tendência moderna de sempre tentar responder a cada pergunta espiritual existente debaixo do sol. Em vez disso, tem descansado em abraçar os mistérios e os paradoxos do nosso Deus.
8. O fenômeno da igreja emergente tem reacendido um saudável interesse nos místicos cristãos que enfatizaram o encontro espiritual com Deus, ao invés de buscar um mero conhecimento acadêmico de Deus e da Bíblia.
Estou absolutamente encantado em ouvir cristãos comuns, e mesmo líderes, falarem sobre esses temas abertamente e sem embaraço. Todos eles apontam para mudanças cruciais que o Corpo de Cristo necessita desesperadamente hoje. Além disso, fico quase eufórico quando ouço que pastores estão deixando suas posições entrincheiradas e começam a repensar toda a base da sua existência cristã. Esse é um passo impressionantemente corajoso e digno de profundo respeito.
Deixe-me voltar a repetir: estamos em uma época da história da igreja nos qual nos deparamos com uma pequena janela de tempo que poderá implicar uma verdadeira e duradoura mudança. Uma janela para a revolução na mentalidade moderna do cristianismo e nas práticas tradicionais da igreja moderna. Uma janela sobre a qual os cristãos daqui a 1000 anos (se Jesus demorar a vir evidentemente), poderão virar as cabeças para trás e ver o início de uma drástica mudança de um paradigma antigo para um novo, de grande vazamento de vinho de um odre velho para um odre novo, através das mãos do Espírito de Deus.
Mas note... essa janela pode ser eventualmente fechada e ela será fechada em breve.
O fenômeno da igreja emergente é promissor, pois incorpora muitos atributos necessários para uma completa encarnação de Cristo na Sua igreja. Ao mesmo tempo, os pontos fracos do fenômeno, se não forem honesta e diretamente abordados, irão reduzi-los para o mesmo estado em que se encontram todos os últimos movimentos de renovação da igreja. Ou seja, vão acabar por desovar em uma nova denominação ou movimento que simplesmente coloca alguns band-aids nas feridas da igreja, em vez de escavar a raiz de seus problemas.
Gostaria agora de enumerar o que eu considero serem as deficiências do fenômeno, juntamente com algumas perguntas em itálico que espero que venham a possibilitar um diálogo sério e aberto entre os líderes das igrejas emergentes. Observe que essa lista revela a essência e os encargos do meu ministério e que trás a minha visão, uma vez que tenho escrito sobre estas questões extensamente noutros locais, onde já tem sido possível encontrar esses fios mais completamente desembaraçados.
Deficiências graves do Fenômeno da Igreja Emergente
Com base na luz que tenho recebido, os pontos fracos do fenômeno da igreja emergente são as seguintes:
1. O fenômeno da igreja emergente tem maravilhosamente articulado algumas das principais falhas da igreja moderna, mas como todos os seus antecessores, ele não foi capaz de identificar e mortificar uma das principais causas da maioria dos seus males.
Acredito firmemente que a maior parte dos problemas e pragas da igreja na modernidade é o sistema clerical. É necessário colocar um ponto-final nesse sistema, pois cristãos protestantes estão viciados no moderno escritório pastoral. O pastor é o profissional para todos os fins religiosos na moderna igreja protestante, tanto nas questões evangélicas como nas mundanas.
Observe que a minha crítica não deve ser considerada um ataque aos pastores, enquanto pessoas. A maioria dos pastores das igrejas emergentes são cristãos dotados que têm um coração para o Senhor e um verdadeiro amor para com o Seu povo. É o papel do moderno escritório pastoral que penso ser profundamente imperfeito, e poucos de nós questionaram isso.
Permitam-me desdobrar um pouco esse assunto. Minha experiência no País e no exterior ao longo dos últimos dezessete anos tem rendido uma inamovível conclusão: boas pessoas têm falado fortemente sobre a vida comunitária, o funcionamento do Corpo, e a vida do Corpo, mas o moderno papel pastoral é totalmente abandonado em determinadas igrejas; essas boas pessoas nunca serão libertas totalmente para funcionarem sob a direção de Jesus Cristo. Presenciei pastores jurarem que eles eram a exceção. No entanto, ao visitarem as suas congregações, era evidente que o povo não tinha conhecimento do primordial, que precisam funcionar como um organismo por si próprios. Nem lhes foram dados quaisquer instrumentos práticos para conhecerem o Senhor intimamente através da Sua vida.
A razão é que as falhas do moderno papel pastoral foram efetivamente incorporadas no papel em si. O pastor, por sua simples presença, provoca uma dependência pouco saudável do seu próprio ministério, direção e orientação. Assim, enquanto ele se ocupa na entrega de sermões, o povo na igreja a que pertence nunca será totalmente livre para definir a sua própria função em uma reunião da igreja. Além disso, o escritório pastoral destrói normalmente aquilo que deveria preencher. Jesus Cristo nunca destinou qualquer pessoa para assumir essa enorme responsabilidade e poder.
No primeiro século da igreja, não havia um único pastor. O pastor protestante (que inclui o pastor evangélico, o pastor principal, e os pastores não-confessionais) evoluiu do sacerdócio católico. O pastor é essencialmente um sacerdote reformado, e sua função não tem raiz na visão original da história do povo de Deus.
No século I, alguns dos anciãos das igrejas desempenhavam o papel de pastoreio. Mas eles não dominavam o ministério da igreja, nem a direção da igreja foi colocada exclusivamente em suas mãos (como é o caso de muitas igrejas hoje conduzidas por anciãos, como é o caso dos presbiterianos e dos Irmãos de Plymouth). Penso que nossa necessidade desesperada é voltarmos primeiramente para esse princípio.
Tempo e espaço não vão me permitir dar provas históricas e pragmáticas para as afirmações acima, mas elas têm sido abordadas noutros locais com grande precisão. Eu cordialmente convido meus leitores a explorarem as Escrituras e a história da Igreja para tirarem por si próprios suas conclusões (vide meu artigo De onde é que veio o Pastor Moderno?: Http://www.ptmin.org/thepastor.htm; juntamente com meus livros Repensando o odre: http://www.ptmin.org/rethink.htm; e Quem é a tua Cobertura?: http://www.ptmin.org/covering.htm.)
Pastores podem falar eloquentemente o dia todo sobre discipulado ou tentarem equipar os santos com verdades. Mas eis aqui a prova: se o pastor deixar sua congregação sem indicar alguém como líder por seis meses a um ano, então ele vai aprender rapidamente o quão bem equipada está sua igreja. Será que a congregação é capaz de conduzir suas próprias canções, sem um líder ou sem um equipe de louvor? Será que vão poder ter reuniões sob a direção de Jesus Cristo como a igreja primitiva? Será que todos os membros da igreja estarão equipados para darem vida um a outro de acordo com seus ministérios nessas reuniões? Será que vão ser capazes de resolver problemas e tomar decisões em conjunto como uma comunidade?
Talvez este pensamento nunca tenha ocorrido a você. Mas aquilo que acabo de descrever é precisamente o que os plantadores de igreja no primeiro século fizeram rotineiramente. Eles trabalharam para fora durante um tempo. Não em piedosa retórica, mas na realidade.
Paulo de Tarso tinha desenvolvido um hábito de viver em qualquer lugar de três meses a três anos, com uma igreja, procurando dotá-la de modo a funcionar na sua ausência. Ele tinha então de deixar a igreja a si própria, sem um clero. Exploraremos mais este assunto posteriormente.
Pergunta: É possível, através de nossos esforços para trazer renovação e mudança para a igreja tradicional, levar a sério os registros bíblicos, confrontando-os, a fim de verificar a legitimidade do moderno escritório pastoral? Podemos, pelo menos, experimentar outra alternativa...o ministério paradigmático que encontramos no nosso Novo Testamento? Para aqueles de nós que estão dispostos a entregar sermões e prover a liderança, temos a integridade para analisar se o papel do sistema pastoral de dar sermões semana após semana verdadeiramente equipa as pessoas, proporcionando seu funcionamento como membros do Corpo de forma coordenada?

(Continua)

Fonte: <>. Acesso em 21 jun 2009.
* movimento cristão que deixou a igreja institucional, com suas práticas e hierarquia, e procura viver na simplicidade da fé, crendo e praticando o sacerdócio universal de todos os crentes.

Um comentário:

  1. Ola irmãos!


    Queria convidar você para conhecer o meu blog, o Genizah que horas é pirado e engraçado, horas é exaltado e sério, mas é super do bem e tem como regra levar o Evangelho da Liberdade Verdadeira e a Santa Subversão de Jesus ao mundo egocêntrico e perdido nos seus valores! E, ainda dando tempo, aproveito para tirar uma onda com este pessoal que anda explorando a fé das pessoas e ainda dizendo que são cristãos... Ops!

    Por minha vez, já me tornei seu seguidor.

    Abraços em Cristo e Paz!

    Danilo

    http://genizah-virtual.blogspot.com/

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