Será que a igreja emergente é totalmente emergente?

Um convite para a reflexão e o diálogo aberto
por Frank Viola
Parte 3



6. Enquanto a fenômeno da igreja emergente tem feito um trabalho enfatizando a narrativa na história nos Evangelhos, ela tem negligenciado o valor da narrativa de todo o primeiro século da igreja como um modelo necessário para a interpretação do Novo Testamento.

A maioria de nós que fazemos parte do fenômeno da igreja emergente leva a sério o Novo Testamento. No entanto, todos manuseamos as cartas do Novo Testamento fora da ordem cronológica e com livros que foram divididos em capítulos e versículos. Isso torna impossível compreender o contexto histórico-social e a posição dos escritos do Novo Testamento. E também abre a porta para perigos espirituais, tais como eleger um texto isolado para provar doutrinas e sistemas teológicos.
Desde a Reforma Protestante, nós cristãos fomos ensinados a sermos reducionistas, quando se trata de estudo bíblico; e individualistas, quando se trata de aplicar as palavras da Escritura. A fenômeno da igreja emergente não conseguiu superar essas duas tendências errôneas. Considere as seguintes idéias que estão abertas ao diálogo e desafio:

A. O Novo Testamento deve ser abordado de modo global, e deve ser entendido no seu contexto direito. Isto é, temos que voltar no tempo e ver todo o cenário antes que possamos compreender corretamente os quadros que nos são apresentados.

B. A fé cristã é intensamente corporativa. Por exemplo, a maior parte das epístolas do Novo Testamento foram escritas para igrejas... grupos corporativos de crentes que sabiam compartilhar de uma vida juntos, e não eram individualistas (das 21 epístolas do Novo Testamento, apenas 5 foram escritas para os indivíduos, e 4 das 5 foram escritos para os obreiros cristãos).

O segundo ponto abre outro universo que eu considero que deva fazer parte da comunhão da igreja emergente. Isto é, viver a vida cristã não funciona, salvo se for a partir da comunhão de vida, face a face, pela comunidade dos crentes.
Quando uma pessoa compreende a narrativa do primeiro século, ele começa a ter uma vontade ardente de compreender todas as passagens do Novo Testamento acerca da transformação de vida, descobrindo que elas não são dirigidas aos seguidores de Jesus individualmente. Ao invés, são dirigidas às comunidades, às igrejas do primeiro-século no sentido próprio da palavra. Consequentemente, aquecer um banco de igreja e ouvir sermões não irá transformá-los. Nem ficar de pé perto de um banco ou de uma cadeira de igreja, com as mãos levantadas, contando louvores no culto liderados por uma equipe de louvor os equipará. A transformação ocorre quando uma comunidade de crentes descobre como viver juntos com o Senhor, assim como viverem suas vidas de uma maneira compartilhada.
Parece-me que o necessário, então, é uma nova abordagem do Novo Testamento. Uma abordagem holística, a fim de que entendamos a história, isto é, a narrativa que está por trás de todos os escritos. A menos que leiamos as cartas de Paulo na ordem cronológica descrita em Atos dos Apostos e descubramos como essas passagens interagem entre si no Novo Testamento, vamos continuar cometendo o erro comum de tomar versículos fora de seu contexto histórico e aplicá-los erroneamente (Para mais detalhes sobre este assunto, vide meu artigo Necessidade: Uma Nova Abordagem para o Novo Testamento: http://www.ptmin.org/needed.htm; A Bíblia não é um quebra-cabeças: http://www.ptmin.org/jigsaw.htm. Tento reconstruir toda a narrativa do primeiro século da Igreja, na ordem cronológica, em meu livro, A História Não Contada da Igreja do Novo Testamento, de editora Destiny Image: http://www.ptmin. org/untold.htm).
Isto me leva a fazer algumas perguntas concisas: valeria a pena para nós que estamos “emergindo” nos aproximarmos do Novo Testamento também de forma emergente? Será que, ao tomar a narrativa da história da igreja primitiva como pano de fundo para todas as epístolas, não revolucionaríamos nossa compreensão dos escritos deixados por Deus, levando-nos mais à frente no esforço de renovação/restauração da igreja? É possível que, se continuarmos a ser individualista e reducionista na abordagem do Novo Testamento que tem dominado a paisagem cristã durante séculos, iremos cometer os mesmos erros que nossos antepassados cometeram? Podemos... e devemos... abandonar totalmente o método de comprovação recortar-e-colar-versículos como base para realização de estudos bíblicos e sermões, para podermos abraçar algo melhor?

7. O fenômeno da igreja emergente, como todos os movimentos de reforma/restauração anteriores, enfeixou os cristãos ao redor de suas próprias coisas, em vez da Pessoa de Jesus Cristo.

Na minha opinião, se analisássemos de forma ampla os movimentos e denominações cristãs em toda história da igreja, descobriríamos que cada um pinta com um pincel muito fino. Para um movimento, o pincel é evangelismo. Por outro lado, é a justiça social e atos de misericórdia. Para outro lado, é louvor e adoração. Para outro, é estudo bíblico e doutrinário com rigor teológico. Para outro, é o poder de Deus, os dons do Espírito, sinais e prodígios. Para outro, é mudar o sistema político. Para outro, é guerra espiritual e oração de intercessão. Para outro, é profecia pessoal. Para outro ainda, é a teologia do tempo do fim (escatologia). E outros mais.
Todos esses pincéis representam coisas cristãs. E eles são apenas isso... coisas, são coisas do cristianismo. São temas sobre o Senhor, que podem-nos tornar ocupados, na melhor das hipóteses; ou tornar-nos obcecados, na pior das hipóteses.
Mas onde estão aqueles que pintam com um pincel todo-inclusivo a Pessoa de Jesus Cristo? Onde estão aqueles que não estão falando sobre suas coisas, ou assuntos... mas que estão falando sobre Ele em uma profundidade pouco conhecida e explorada? E não apenas falam sobre Ele, mas que estão apresentando-O e ministrando-O ao Seu povo?
Anteriormente afirmei que tenho lido resmas de artigos sobre a igreja emergentes. Embora muitos artigos revelem pensamentos doces sobre muitos assuntos, eu descobri uma coisa em falta em quase todos eles:

A centralidade de Jesus Cristo.

Lembro-me de ler alguns artigos das igrejas emergentes há pouco tempo, e eu realmente contei quantas vezes o Senhor era mencionado neles. Em um artigo, que foi bastante demorado, Ele foi mencionado uma única vez. Em outra, Ele não foi mencionado em todo o texto!
Em contrapartida, se alguém for ler as epístolas de Paulo com um olhar atento, descobrirá na sua pena pingos de tinta de Cristo. Vejamos, por exemplo, a sua epístola aos Efésios e Colossenses. Tente contar quantas vezes Paulo menciona Seu Senhor em um único capítulo. É algo além da compreensão!
Em que ponto quero chegar? Paulo teve um encontro com seu Senhor vivo que abalou suas estruturas. Um ministério nasceu desse encontro. E esse ministério foi uma Pessoa! Paulo não se ocupou com coisas cristãs. Sua ocupação foi com o próprio Senhor. E este glorioso Senhor encarnou todas as coisas espirituais.
Posso me aventurar a fazer uma pergunta aos meus colegas ministros na igreja emergente? É possível que tenhamos perdido o ponto principal da nossa fé? Será que estamos simplesmente transmitindo as desgastadas ferramentas que nos foram dadas por nossos antepassados evangélicos sobre a forma de conhecer o Senhor?(orar e estudar a sua Bíblia... orar mais e estudar a sua Bíblia mais!) Poderá haver novas ferramentas para conhecer nosso Senhor de forma profunda e prática? Se houver, nós estamos abertos a descobri-las juntos? E nós estamos dispostos a experimentá-las antes de pregá-las para o povo de Deus?
Será possível que nossos escritos e mensagens revelem de forma íntima e familiar Aquele que vive em nós ou somos aqueles que apenas se envolvem com temas, questões, assuntos e coisas relacionadas a Ele? Estarão os nossos ministérios direcionados unicamente para dar VIDA... que é o próprio Cristo, ou revelam uma vaga familiaridade com Essa Gloriosa Pessoa? Nós estaremos instruindo o povo a Deus acerca de temas sobre a fé, ou estamos introduzindo-os em um encontro vivo com Ele..., com um sabor que irá consumir e cativar os seus corações para o resto das suas vidas?

Desafio e Convite

Em meados do século 20, os relojoeiros da Suíça dominavam o nicho do mercado mundial de relógios. Mas isso mudou quando um dos seus próprios conterrâneos apresentou uma nova e revolucionária idéia: o relógio quartzo. Ele apresentou essa idéia aos fabricantes suíços e eles riram dele. Eles concluíram que nunca poderia funcionar, de modo que se recusaram a patentear a idéia. A empresa Seiko, por outro lado, olhou com atenção o relógio quartzo e o resto é história.
O poder de um paradigma influenciou de tal forma os fabricantes suíços que eles não puderam compreender o novo conceito do relógio de quartzo. Porque o relógio quartzo não tinha engrenagens, não tinha motor e não tinha rolamentos, eles o rejeitaram. O paradigma deles não permitia inovação. O resultado líquido foi que eles perderam a liderança na indústria de relógios, forçando-os a despedir milhares de trabalhadores. Tudo ocorreu porque o relógio de quartzo não se encaixava em sua visão do mundo, não cabia dentro do seu paradigma. Eles não apreciaram uma a nova direção porque estavam cegos com a velha direção.
Tenho uma firme convicção de que uma mudança paradigmática semelhante em relação à estrutura e a prática da Igreja, bem como da plantação de igrejas é uma condição absoluta e essencial para que o Corpo de Cristo possa refletir o sonho no coração de Deus e ter qualquer impacto cultural significativo. Ou dito de outra forma: uma séria reflexão acerca do moderno papel pastoral; a forma como as igrejas são plantadas; a centralidade de Jesus Cristo; a origem da conduta cristã terrena; a narrativa da história do primeiro século; e o eterno propósito de Deus, são necessários se a igreja emergente tem qualquer esperança em emergir plenamente.

Portanto, considero este artigo como um desafio e um convite para o diálogo paciente, com companheirismo, entre os líderes, os autores, blogueiros, e os membros da comunidade da igreja emergente.

É uma grande alegria ter a oportunidade de discutir estes assuntos com as pessoas que foram capturadas pelo chamado para emergir. E, para tanto, possamos nós aprender uns com os outros e tirar proveito da atual janela de mudança que Deus tem aberto diante de nós.

Nota: Este artigo foi publicado em 2005. Os leitores podem decidir se a igreja emergente emergiu completamente ou não.

Fonte: <http://www.ptmin.org/fullyemerge.htm>. Acesso em 21 jun 2009.

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