Comunhão em Caxias, Canoas, São Leopoldo e Porto Alegre

CURVAS E MONTANHAS
(parte I)


Nosso motor 1.0 estava suando para contornar as últimas curvas que davam acesso à cidade. O sol já estava se pondo e o frio aumentava aos poucos. Já estamos chegando? Perguntava minha filha mais nova, sendo tranqüilizada em seguida, pois logo sugiram as luzes da cidade. Depois de umas voltas pelo centro da cidade, encontramos a rua Treze de Maio e nos dirigimos, ladeira abaixo, ao endereço tão aguardado. Já havíamos estado lá uma vez, em um final de semana memorável, regado a muita comunhão e carinho dos irmãos. Naqueles dias, nossas filhas e a filhas dos nossos anfitriões se “acharam”, o que rendeu muitas súplicas e algumas lágrimas para que ficássemos mais um pouco...
Chegamos. Estacionamos o carro e, logo o portão da garagem se abriu, dando acesso a uma descida que dava para os fundos da casa. Fomos recepcionados pelos irmãos, em respeitoso silêncio, já que, no salão do piso inferior, já havia iniciada a reunião.
Havia ali vários santos em volta a mesas compridas dispostas de forma que todos se vissem. Fomos para o fundo, como é o costume dos que chegam atrasados. Eram quase oito horas da noite.
As orações continuaram até que um hino mudou o ritmo da reunião, agora mais vivo e acompanhado por todos os presentes. Não conhecíamos a maioria dos que ali estavam, até aquele momento. Na cozinha, que também fazia parte do ambiente, umas irmãs estavam ocupadas com algumas coisas deliciosas. Outra irmã atendia sua filhinha enquanto os demais cantavam alegremente.
Após as pausas que costumam ocorrer, o Silvio tomou a palavra e passou a discorrer sobre a vontade de Deus para nós, tendo sido seguido por David e Geraldo que relataram experiências do dia-a-dia refrigerando a alma dos presentes. Vimos que todas as pressões que sofremos têm uma só finalidade: fazer com que algo que está em nosso interior seja conhecido. Quando somos “espremidos” pelas circunstâncias e pelas pessoas em nossa volta, nossas atitudes e palavras deixam expor o que há em nosso coração, o que, muitas vezes, surpreende nossos próximos e até nós mesmos. Nosso Senhor, quando andou nesta terra, entretanto, decidiu viver de acordo com a vontade do Pai, falando o que o Pai lhe falava e fazendo o que o Pai desejava. Quando “espremido”, nada saía da Sua boca a não ser a necessidade de perdão. Não saíam murmurações ou ataques, por que no coração do Senhor não havia nada disso. Realmente, bem-aventurados os pobres ou vazios de espírito, porque deles é o Reino dos Céus.
Deus não tem prazer algum em nos expor, mesmo porque Ele já conhece nosso coração. Talvez os ignorantes sejamos nós mesmos, desconhecendo o que se passa no fundo do nosso ser. Damos muita atenção às nossas atitudes e palavras. Procuramos refrear a língua e ser educados; alguns têm mais sorte, outros nem tanto. Mas de onde vem tudo isso? Do nosso coração. Tudo está lá dentro. Ninguém consegue deixar de ter inveja, se a inveja estiver arraigada em seu coração. Ninguém consegue não reclamar, se a insatisfação estiver instalada em seu coração. Não conseguiremos amar a Deus com todo o coração, se algumas frustrações contra Ele estiverem escondidas em algum lugar em nossos corações.
Quando os fariseus criticaram o Senhor por comer com publicados e pecadores, não sabiam que estavam doentes (Mc 2:17). Eles se achavam sadios e por isso perderam a oportunidade de
serem curados. Enquanto isso, à mesa, aqueles que reconheciam sua situação miserável se banqueteavam com o Médico dos Médicos e eram curados.
Somente uma comunhão sincera com o Senhor, sem qualquer justificativa, explicação ou desculpa, pode lançar luzes nas nossas trevas e assim nos curar. O Senhor não veio julgar o mundo, mas salvá-lo. A luz cura e a comunhão restaura!
Entretanto, muitas vezes pode ocorrer que, ao invés de receber luz na comunhão com o Pai, sejamos levados a buscar conhecimento bíblico acerca de Deus. A tão procurada “revelação” pode, na realidade, aprisionar-nos nas cadeias da presunção.
David então comentou que, da sua casa, pela janela, é possível ver, ao longe, uma linda montanha. A visão e o conhecimento da montanha são reais. É possível descrever com detalhes a montanha, suas rochas, as árvores que a cercam e o tapete verde que a cobre, até mesmo é possível arriscar sua distância da casa e sua altura aproximada. Entretanto, é possível fazer tudo isso, sem ter chegado, pelo menos próximo da montanha. Chegar à montanha certamente requer uma boa caminhada; às vezes abrindo “picadas” no mato, passando por córregos e escalando rochas; haverá cansaço e toda sorte de dificuldades que as matas virgens oferecem, principalmente se você decidir abrir trilhas em lugares ainda nunca antes explorados.
Hoje em dia, há muitos cristãos procurando ver a “montanha” da revelação. Estão desejosos por conhecer mais acerca de Deus, do Seu Plano, da interpretação de profecias e dos temas mais complexos da Bíblia. Poucos, entretanto, têm a disposição de ir até a montanha e ter experiências reais com Deus. Não são muitos aqueles que realmente assumem o “risco” de andar por lugares desconhecidos da comunhão com Deus, confiando somente nEle e em mais ninguém.
Ter o conhecimento bíblico é bom na medida em que nos leva a conhecer a nós mesmos e a Deus; mas não ter a experiência acerca desse conhecimento pode intoxicar-nos e nos distanciar do Senhor:

"Examinais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna, e são elas mesmas que testificam de mim. Contudo, não quereis vir a mim para terdes vida" (Jo 5:39-40)

Somente quando a Palavra de Deus é experimentada na nossa vida é que podemos adquirir revelação. Todo nosso conhecimento nada conta para Deus, se não passar antes pela experiência diária e isso através da comunhão com Ele. Todo conhecimento que não nos leva para a comunhão com o Pai, na realidade, para nada serve.

“Mas o que, para mim, era lucro, isto considerei perda por causa de Cristo. Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como refugo, para ganhar a Cristo” (Fp 3:7-8)

Será que o apóstolo Paulo tinha descoberto um outro tipo de conhecimento de Cristo, um conhecimento adquirido por intermináveis horas de comunhão e por incontáveis momentos em que pôde experimentar a Cristo em sua vida diária? Quanto mais Paulo se “arriscava” em confiar no Senhor e andar com Ele, mais era preenchido com tal conhecimento. Por isso o Apóstolo pôde lançar fora o velho conhecimento que tinha adquirido e desfrutar da “sublimidade” desse conhecimento cheio de amor e vida.
Alguns irmãos então compartilharam suas experiências enquanto se concluíam os preparativos do jantar, até que se ouviu o tão esperado “está pronto!”.
(continua...)

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