Comunhão em Caxias, Canoas, São Leopoldo e Porto Alegre

SOBRE NOZES E VÉUS
(Parte II)


O sábado amanheceu nublado. Quando acordamos, nossos jovens anfitriões já tinham preparado o café com todo carinho e atenção. Tínhamos marcado o início da comunhão para as nove e meia, como se existisse comunhão de hora marcada, como em consultórios médicos. Aproveitamos o café para compartilhar o que havíamos ganhado (ou perdido) na noite anterior. É muito bom tomar café com os irmãos; podemos ficar à vontade e trocar experiências de cidades diferentes com nossos companheiros de caminhada.
Hora de sair. Arrumamos as malas já que iríamos embora no sábado mesmo, à tarde. Chegando à casa onde ocorreriam as reuniões, alguns irmãos já haviam chegado, mas nem todos. Acho que os demais aproveitaram o café para ter comunhão e repartir o Cristo maravilhoso.
O que mais me deixava intrigado era que não havia uma programação fixa. É isso mesmo, não havia programação. Mas que horas seria a reunião? E o almoço? E de tarde, que faríamos? Quais seriam os temas abordados? Para não passar vergonha, puxei o Geraldo para um lado e lhe perguntei sobre esses “detalhes”.
- Não sei. Vamos ver o que o Senhor está preparando para nós – foi sua misteriosa resposta.
Tudo bem... Já havia participado de inúmeros encontros, conferências e congressos e sabia que, sem organização “o povo se corrompe”, mas, tudo bem. Há muitos anos atrás tinha ouvido falar de que o Espírito Santo é quem conduz todas as coisas, inclusive os ajuntamentos dos filhos de Deus. Mas, possível também nesse sábado e com tantos irmãos?
Aos poucos os irmãos chegavam e se cumprimentavam, trazidos pelos seus novos amigos e anfitriões. Espontaneamente os irmãos iam se juntando em pequenos grupos para cantar, orar, ter comunhão sobre os mais variados assuntos. Havia uma harmonia desafiadora no ambiente.
O dono da casa tinha preparado algumas nozes colhidas ali próximo. Elas ainda estavam envoltas em uma casca escura que muitos não conheciam. Aquela mesa então passou a ser concorrida pelos degustadores da especiaria típica de fim-de-ano.
Visto de fora, aquele local parecia mesmo um restaurante, com as mesas e os “clientes” alegremente “comendo” o que lhe era servido. Uma comida muito especial, de acordo com a necessidade de cada um. Havia aqueles que iam de mesa em mesa para aproveitar o máximo os diversos pratos: palavras, revelações, dúvidas, experiências do passado ou projetos para o futuro, renovando a esperança dos presentes.
Não havia mensagens formais do tipo palestra (para decepção dos viciados em mensagens), mas conversas agradáveis e informais, onde a vida fluía naquele calor fraternal, enquanto, lá fora, o frio e o vento sopravam na serra.
No salão-cozinha, havia também muitos livros expostos, refinadamente escolhidos pelo garimpeiro Geraldo, como os do Brennan Maning (o Evangelho Maltrapilho), Wayne Jacobsen (Por que você não quer mais ir à igreja?), Madame Guyon (Experimentando Deus através da Oração), A. W. Tozer (Mais perto de Deus) e Jim Hohnberger (Fuga para Deus), dentre muitos outros, o que tornou o ambiente mais convidativo à contemplação e comunhão entre os irmãos.
Passou o almoço e chegou o jantar, sem a bendita programação e, por incrível que parece, não fez falta alguma. Foram instantes onde imergimos na eternidade, já que ninguém viu o tempo passar. Desfrutamos também algo de Hebreus, de como o Senhor Jesus não se envergonha de nos chamar irmãos, e como fica feliz de estar conosco, cantando no meio da congregação (Sl 22). As refeições foram servidas, com agradecimentos e, espontaneamente irrompeu um louvor, com hinos e cânticos, uns desconhecidos outros acompanhados por todos; assim o jantar foi servido com uma verdadeira “música ambiente”, contada por santos felizes com Deus e com os irmãos. Tudo seria absolutamente normal, se não fosse a procedência dos presentes: grupos originários de estados diferentes (Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul), com experiências, culturas, idades e sotaques diferentes, mas com um amor de Cristo e em Cristo que a todos unia e marcava o compasso da comunhão e a melodia no ar.
Por fim, a comunhão dos pequenos grupos, aos poucos e sem qualquer interferência humana, tornou-se uma comunhão maior que envolveu a todos. Nesse meio tempo, um pequeno grupo iniciou uma discussão sobre a interpretação de alguns versículos. A discussão estava acalorada, mas, sem notarmos, alguns santos mais novos foram se achegando, a fim de receber alguma vida, sem conseguir sorver algo fresco naquele debate. Essa situação, entretanto, serviu para expor o quanto ainda amamos o conhecimento e os belos debates bíblicos. Como o conhecimento é sedutor como uma serpente que nos envolve e inocula o veneno na arrogância.
O Geraldo então falou sobre suas experiências pessoais com católicos fervorosos que amam a Deus e como há ainda tanto preconceito daqueles que acreditam estar cobertos de verdades, mesmo que não as pratiquem. Esse conhecimento estéril produz orgulho e a resistência de Deus.
Por outro lado, as pessoas em nossa volta estão famintas e aguardam ansiosamente por alguém que tenha vida, daí a grande decepção quando se encontram com aqueles que se dizem filhos de Deus, mas não tem vida para compartilhar. Como poderiam aqueles que receberam a vida eterna, a luz da vida, a água viva, a árvore da vida, a própria vida, não terem nada para lhes servir?
Nossa mente está programada, por natureza, para classificar coisas. Classificamos objetos, carros, casas, estilos de vida, empregos, empresas e por fim, classificamos pessoas. No campo religioso, também temos nossas classificações que vão desde grupos históricos, protestantes tradicionais, renovados, grupos livres, igrejas locais, chegando até aos mais espirituais, isto é, nós mesmos. Quanta pobreza, meu Deus! Como chegamos a tanta falta de realidade!
Dizem que o pior pecado é não crer, pois não teria perdão. Talvez seja. Paulo, entretanto, intitulava-se como o pior de todos os pecadores, não porque perseguia e aprisionava os cristãos, mas porque, como fariseu, não entrava no Reino de Deus, nem permitia que os que estavam entrando entrassem (Mt 23:13)
David então tomou a palavra solicitou autorização para sacrificar uma das nossas vacas sagradas: identificar os irmãos que estão nos grupos institucionais como babilônia.
Em Apocalipse, não há nenhum lugar que relacione babilônia à religião, mas há várias passagens que a relacionam ao comércio e à política (Ap 14:8; 17:1-6; 18:1-24). É possível que, no ambiente comercial, haja também um “departamento” religioso, mas partir daí e concluir que nossos amados irmãos estão em Babilônia, há um grande caminho e uma grande distorção por vários motivos.
Em primeiro lugar, os grupos institucionais estão levando o evangelho adiante. Talvez você mesmo tenha se convertido em um grupo institucional. Além da salvação, nos grupos há curas verdadeiras, arrependimento e ajuda espiritual que só seriam possíveis através da obra do Espírito Santo. Como poderíamos ser obrigados a deixar a Babilônia se o Senhor ainda permanece lá. Não estaríamos na contramão?
Em segundo lugar, a Babilônia possui uma estreita relação com a besta, já que está montada nela (Ap 17:3). Com poderíamos afirmar que irmãos nossos estão montados em Satanás? Trata-se de uma acusação gravíssima e um ensino errôneo, para dizer o mínimo.
Alguns podem argumentar que Babilônia não são os irmãos, mas um sistema religioso. Qual sistema? Qual grupo você se recorda? Quem foi apontado no Novo Testamento? Os apóstolos se referiram a algum sistema? Quem seria responsável por todas as abominações da terra? Quem está tomando o sangue dos santos? Quem está enriquecendo os reis da terra e os comerciantes? Você se arrisca a apontar algum sistema religioso e julgar de uma só vez uma quantidade enorme de irmãos?
Só Deus sabe o que passa no coração das pessoas, por isso só Ele pode julgá-las. Quanto aos Seus filhos, o Pai disciplinará a cada um, conforme suas obras, mas a nós não compete julgar servo alheio.
Satanás, pode utilizar qualquer coisa para atacar os filhos de Deus e não deixará de usar até mesmo a Bíblia ou algum grupo cristão que lhe permita brechas. Mas nossa luta nunca será contra os santos e, sim, contra o Adversário, o acusador de nossos irmãos e seus principados e potestades.
Esse ensinamento, por sua vez, desdobrou-se em outro que afirma que, saindo de Babilônia, você poderia chegar até Jerusalém e restaurar a cidade santa e seus serviços. Esse ensino parte do princípio que a mudança de um lugar físico para outro pode resolver o problema. Está errado! Sair de um banco de igreja institucional e ir para o sofá da sala ou alugar um novo salão sem placas nada resolverá. Esse ensino pode parecer uma boa ilustração, mas não está de acordo com o Novo Testamento. A mulher samaritana questionou o Senhor sobre o lugar correto de adoração, referindo-se a um lugar físico. A resposta do Senhor foi estonteante: não há lugar físico! Há um lugar, entretanto, que não pode ser visto, construído, classificado ou medido pelos homens: o espírito humano.

“Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque o Pai procura a tais que assim o adorem. Deus é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade” (Jo 4:23, 24 - SBTB).

Se você quer restaurar a casa de Deus, comece restaurando sua adoração a Deus no espírito. Quanto à igreja, o Senhor se comprometeu em edificá-la pessoalmente:

“O céu é o meu trono, e a terra, o estrado dos meus pés; que casa me edificareis, diz o Senhor, ou qual é o lugar do meu repouso?” (At 7:49)
“Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16:18)

Quanta luz brilhou naquele lugar! O ambiente solene deu lugar então a um clima de arrependimento geral. Em meio a lágrimas, ouvia-se orações, intercessões e prantos. Algumas irmãs oravam com véus, outras sem; alguns irmãos se arrependiam da soberba; outros, de classificarem e julgarem servos alheios; outros ainda oravam pelo Corpo de Cristo e pelos santos que necessitam ser supridos e ajudados no crescimento da vida divina. O Senhor investiu e ainda está investindo tanto em nós e nos damos o luxo de desperdiçar nosso tempo, o das pessoas e as oportunidades que Deus nos dá.
Veio à minha mente a situação da igreja em Éfeso: cheia de conhecimentos, mas sem amor. Pedi ao Senhor que nos levasse à prática das primeiras obras e continuasse nos lembrando onde caímos...

“Ou desprezas a riqueza da sua bondade, e tolerância, e longanimidade, ignorando que a bondade de Deus é que te conduz ao arrependimento?” (Rm 2:4)

Terminada aquela reunião, nos despedimos dos irmãos, trocamos endereços e renovamos convites de visita e voltamos, quebrantados, para a casa dos nossos jovens anfitriões; de manhã, voltaríamos para Porto Alegre.

(Continua...)

Um comentário:

  1. Eu estava lá! Foi assim mesmo!

    Heehehe

    Que o Senhor abençoe vocês!

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